"O último som que ouvi foi um choro desesperado. Não por minha causa, mas por outra vida ceifada em meu nome. A última coisa que vi foi uma multidão enlutada, enfurecida, feliz de ver que o 'mal' havia sido expurgado dali. Nenhum rosto trazia compaixão. Nenhum afeto. Elara... Eu queria Elara... Um último abraço... Por que não ouvi ela? Por que deixei que partisse? Bom. Melhor assim, ou ela estaria pendurada em uma forca ao seu lado. O ultimo cheiro que senti foi o perfume de vinho caro e jasmim e bigarade (Citrus aurantium). O Inquisidor Chefe tinha o mesmo cheiro... Então o cadafalso improvisado foi solto e eu cai. Um som de estalo foi ouvido por todos, mas eu já não podia ouvir. Fui imediatamente devorado por uma escuridão sem fim. Essa foi a minha morte. Enfim, cara-a-cara com minha adversária... Eu à desafiei e perdi. Eu lutei a luta justa, mas a Morte não segue regras. Ela impõe as regras. Um tempo infinito se passou. Minha alma em suspensão no firmamento. Entre estrelas, o Sol e a Lua, vaguei livre pela primeira vez. Mas aquilo não era liberdade. Era a destruição das possibilidades, o fim da esperança. Eu perdi. Era o fim. Então... Por que? Por que eu ainda sentia... Sentia o peso da terra... O cheiro da umidade e da podridão? Então despertei. O escuro omnipresente ocupou minha visão. Tentei respirar, mas terra entrou em minha boca. Não senti vontade de tossir, nem falta de ar. Meu peito não estava agitado. Na verdade, ele parecia nem estar batendo. Tentei me mover, mas algo fez resistência. Terra. Uma certeza fria foi tomando forma. Eu estava Morto. Mas não estava. Isso estranhamente não me assustava. Parecia certo e extremamente errado ao mesmo tempo... Uma última ironia de minha inimiga... Claro... Ela não me aceitaria em seus braços... Ela me negou seu abraço final. Agora eu jazia na terra como um cadáver... Mas eu estava vivo... Ou quase."
Este é o cemitério onde enterro meus sentimentos. Cada poema aqui publicado, tem a exclusiva razão de ser um desabafo para mim mesmo. Se quizer compartilhar, a vontade. Mas cuidado, se se aprofundar de mais no meu escuro pode se perder.
O Autor
- Dalua - O Poeta Sombrio
- Escrever sempre foi um hobbie e uma forma de tratamento para os momentos mais difíceis ao longo da minha formação como indivíduo. Nunca imaginei que meu trabalho viria ao encontro de tantas pessoas. Que tantos se identificariam com os sentimentos com os quais lido em meus trabalhos. Criei esse blog como um backup de minhas poesias, por medo de que se perdessem caso não as tivesse em rede. Hoje tenho um público cada vez maior e que, mesmo com minhas prolongadas ausências, continua a acompanhar minhas postagens. Agradeço pelo interesse, de verdade.
sábado, 7 de março de 2026
Ato 11 - A Inquisição
"Algum tempo se passou desde a noite fatídica em que Draskull bateu em minha porta. O avanço da corrupção havia se estabilizado, mas ainda me causava constante agonia. Entre delírios de febre e dor, dediquei minhas últimas forças na busca de algo que pudesse reverter esse quadro. Nada nas anotações de Nassus, ou mesmo os conhecimentos proibidos da bruxa Adela falavam sobre essa condição. Precisei navegar sozinho em águas desconhecidas e traiçoeiras. Isso me exigia tempo... Mas o tempo estava ao favor de minha adversária. Ela podia esperar até o final dos tempos. Eu não. Como a própria corrupção que se espalhava, os boatos também se intensificavam. De santo milagroso, fui rapidamente convertido em demônio da pestilência. Não tardou até que agentes da Inquisição descobrissem sobre minha condição. Mesmo longe da influência da Igreja de Prios, mesmo no isolamento de Villamahar, a longa mão da Inquisição chegou até minha porta. Fui arrastado para fora da minha Casa de Cura e levado até o centro do vilarejo. Rostos assustados assistiam com curiosidade e pavor... Eles não temiam por mim... Temiam A MIM. Mesmo Angus e Anthonia abaixavam seus rostos e desviavam o olhar. Busquei na multidão alguém, alguma pessoa dentre tantas, que me visse com compaixão... Nada. Apenas uma massa amorfa de rostos estranhos, distantes e indiferentes. Fui despido em frente a todos. Minha corrupção, exibida como prova de um crime imperdoável. Gritos e vaias ressoaram. Acusações de feitiçaria, profanação e depravação ecoaram em coro. Vizinhos acusavam uns aos outros de terem compactuado com minha mácula e um novo medo brotou: eles poderiam executar mais pessoas além de mim, se acharem que estão mancomunadas comigo! 'PAREM!' gritei com todas as forças que eu tinha. A multidão se calou por um instante e retomou a balburdia ainda mais frenética. 'ESCUTEM! NÍNGUEM PARTICIPOU DISSO. EU SOU O ÚNICO QUE DEVE SOFRER!' - Mas a Inquisição não escutou. Arbitrariamente, passaram a capturar os acusados e arrasta-los para interrogatório. Vi Angus lutando contra um Inquisidor antes de ser atingido por uma alabarda. Gritei com todas as forças, mas minha voz não tinha nenhum poder ali. A perseguição durou algumas horas. No final da tarde, dezenas de pessoas estavam amarradas em pilares, sendo chicoteadas e interrogadas. Entre os Inquisidores, eu podia jurar ter visto alguém cuja forma me remeteu Dullihan e seu capuz cônico. Mas eu não tinha mais forças e nem tempo para pensar nisso. Ao anoitecer daquele dia, fui condenado a execução. Outras doze pessoas, incluindo Anthonia e seus filhos, também seriam executadas por conspirarem com o profano. Ao me deparar com a forca, lembrei de Von Heither, 'Você MERECE MORRER' . Era inevitável. Aquilo era um xeque mate. Foi uma árdua e injusta disputa e ela iria acabar agora. A sentença foi lida. Uma prece à Prios foi entoada. A corda foi amarrada em meu pescoço. Com o último raio de luz do Sol e o despontar da primeira estrela, a Escuridão me encobriu e meu corpo balançou."
Ato 10 - A Queda
"Meus dias foram mais sombrios após aquele duelo. Algo se quebrou dentro de mim, morrendo em meus braços junto com aquele homem. Segui atuando em minhas responsabilidades. Angus achou tudo aquilo hilário... 'Eu não imaginava que você tivesse um lobo dentro de você, meu Bror! Confesso que temi pela sua vida quando o duelo foi convocado. Mas o homem tinha o direito de exigir reparação da honra... Eu só podia confiar que os Deuses protegeriam você. Mas eu estava errado! Você foi um verdadeiro Stridskämpe (combatente)!'. Por mais bem intencionadas que fossem as palavras de Angus, elas me atingiam como uma marreta sobre o aço quente de uma forja. Aos poucos, fui me afastando da Casa Grande e me restringi ao clausuro da Casa de Cura... Cura... Irônico. Em nada aquele lugar podia me ajudar a curar a mácula que eu carregava. Esse xeque de minha adversária quebrou minhas defesas e o pior ainda estava por vir. Elara continuou vindo me visitar, apesar dos meus protestos. Ela se culpava tanto quanto eu, ou até mais. Isso me corroía. Ela era jovem, bonita e tinha um perfume delicioso de flores do campo e lavanda. Eu não suportava a ideia de ter destruído seu futuro. Nenhum homem iria dividir seu teto com ela. A fama de infiel destruiu qualquer chance de que isso ocorresse. Ela tornou-se uma pária na vila e por isso eu não podia rejeitar suas visitas. Eu era tudo que ela tinha. Com o tempo, Elara aprendeu um pouco sobre medicina. Ela então passou a me ajudar no tratamento dos enfermos, principalmente as grávidas. Algumas pessoas da vila começaram a maldizer a Casa de Cura, dizendo que era um lugar sujo onde a luxuria e a promiscuidade tomavam conta. Novamente, os boatos cresciam, famintos por sangue. Os peregrinos continuavam vindo de todas as partes. Homens ricos e pobres. Jovens e velhos. Todos queriam uma resposta que aplacasse seus sofrimentos. Eu nunca recusava ninguém, mas Elara sim. Ela começou a selecionar quem era prioridade, quem poderíamos ajudar e quem era um 'caso perdido'. Isso gerou um conflito. Pela primeira vez, brigamos. Eu disse 'Você não tem o direito de decidir quem pode ser salvo! Temos que atender TODOS de forma igual!' e ela me respondeu 'Você NÃO PODE salvar a todos! Você esta se destruindo! Pare! Você precisa descansar! Você não vê que a culpa está te matando? Olhe para si! Está magro! Está pálido! Você está mais morto do que vivo, Hellicar! Você precisa cuidar de si, ou não poderá ajudar mais ninguém!'. Eu sabia que ela tinha razão, mas meu orgulho me cegou. Eu PRECISAVA salvar todos... Eu PRECISAVA... Era uma obsessão. Cada vida que eu salvava diminuía um pouco a culpa... Mas a cada morte, a culpa era redobrada. Era uma matemática cruel. Jogar contra a morte era a inevitabilidade da derrota, mas eu u era teimoso demais para desistir. Então, ela partiu. Sem suportar acompanhar meu declínio, ela me deixou. No momento, eu estava anestesiado para essa dor. Tudo que eu podia pensar era no próximo paciente. Na próxima vida que eu salvaria. Eu derrotaria a morte. Eu PRECISAVA. Eu precisava... Mas... Por quê? Eu não pensava mais. Eu agia. E assim eu salvava vidas. Uma noite, um homem bateu na porta da Casa de Cura. Ele vestia um manto negro que lhe encobria a face. Seu cheiro era de algo podre, doentio e sanguinolento. Me lembrava diretamente do cheiro do calabouço e da condenação. Ele entrou sem cerimonia, jogando um saco cheio de ouro sobre minha mesa. 'Então... Você é o tal milagroso curandeiro... O agente divino enviado pela própria Deusa pra curar a morte...'. Eu não sabia o que responder. O tom do homem era de desprezo e descrença, mas tinha um toque de desespero e expectativa... Um sintoma de urgência. 'Me cure então! Se não for capaz, você sofrerá as consequências...'. Lembro de pensar 'Consequências? Eu já sofro elas...', contudo o que o homem prometera era algo muito pior do que eu podia imaginar. Ele então tirou suas roupas e revelou sua mácula. Fístulas e pústulas negras como a noite sem luar. Deformações da carne que desafiavam a lógica... Era para ele estar morto... Aquilo me intrigou... Ascendeu uma chama que a muito havia se apagado em mim: curiosidade. Examinei sua condição, seus sintomas... Aquilo não era uma doença comum... Era Corrupção. Por três dias e três noites tranquei a Casa de Cura. Pela primeira vez, recusei pacientes. Draskull, como se chamava aquele homem, exigia toda a atenção que eu tinha. Ele era agressivo, bruto e intempestivo. Frequentemente me chamava de fraude, de aberração de Davokar, mas eu não dava importância. Busquei nos registros de Adela as informações sobre a Corrupção e me dediquei a tratar as feridas borbulhantes. Mas aquilo estava muito além da minha capacidade... Talvez, além da capacidade de qualquer um. Fui obrigado a admitir minha ignorância e Draskull vociferou injurias e amaldiçoou-me. Quando ele partiu, me senti estranhamente aliviado. A presença daquele homem era nefasta... Fazia as sombras se alargarem e o frio se intensificar. As palavras dele me assombraram por vários dias e sonhei por muitas noites com sua ameaça. Então a maldição se concretizou. Começaram a surgir feridas negras na minha pele. Então, fístulas irromperam e espalharam-se pelo corpo. Febre alta e dores atrozes, piores do que qualquer tortura que Dullihan pudesse me propor. Draskull havia me maculado com sua maldição... A mesma que ele suportava. Logo, a vila soube da minha condição. Os boatos de que a Corrupção havia se alastrado se espalharam como fogo selvagem. Peregrinos foram expulsos, doentes comuns foram isolados. Nem Angus ousava me ver em meu estado maculado. Eu estava apodrecendo em vida e não podia fazer nada para impedir. A minha inimiga tinha me dado um golpe fatal... Eu chorava pensando em Elara, em Nassus, em minha infância antes da mudança... Pelo menos Elara e Nassus não estariam aqui para ver o meu tormento. As palavras de Von Heither ecoavam na minha mente: 'Você merece morrer'. Esse pensamento me perfurava como uma adaga. Doía mais do que a própria degradação da carne. Quanto tempo mais eu iria suportar? Eu... Estava perdendo as esperanças. Quase desejava a morte... Mas isso seria trair meu salvador... ' Se há vida, existe a esperança'... Mas até quando?"
Ato 9 - Recomeço e Consequências
"Essa lembrança é mais recente. Cinco verões e um inverno atrás... Dois verões desde a morte de Nassus e meu vigésimo quinto verão. Depois de me despedir de Adela com um certo dessabor, conduzi o vagão de Nassus... Conduzi o MEU vagão para fora dos domínios da Bruxa... Lá ficaram os restos de meu amado professor. Parece que nossa inimiga venceu ele afinal. Adela resistiu e reclamou para que eu não deixa-se o corpo dele lá, mas atendi o desejo final de meu mestre. Se a bruxa profanar o corpo, que seja. Talvez aquele velho safado até estivesse contando com isso... De qualquer forma, assim eu parti. Deixei meu amado pai em seu leito eterno e assumi as rédeas de Horse. Vaguei como sempre. Estradas e mais estradas sem fim. Evitei bandidos e soldados. Cuidei de feridos e enfermos. Salvei muitos e lamentei a perda de inúmeros. Minha inimiga e eu travamos uma partida intensa de xadrez... Cada qual tomando peças um do outro, mas ela sempre me pondo em xeque. Foi nessa busca incessante por uma cura definitiva para a morte, que acabei chegando em Villamahar. Esse isolado vilarejo, próximo as margens do Rio Anorath, tinha um perfume diferente. Um cheiro salino de maresia, trazido pelas águas do rio até a costa. A geografia e clima do local era propícia para o cultivo de certas ervas raras chamadas Cicuta (Conium maculatum). Ao chegar em Villamahar, fui recebido com hostilidade pelo povo. Obviamente um Changeling caolho, manco e cheio de cicatrizes levando uma carruagem cheia de poções e instrumentos afiados traria desconfiança ao pacato povoado do norte. Contudo, fui construindo minha reputação aos poucos. Ofereci tratamento para as mazelas do povoado, em troca recebi alimento e abrigo. Em poucos dias fui aceito como membro honorário da vila, após tratar de uma infecção severa que afligia a esposa do lorde local. Anthonia sobreviveu e se recuperou bem, após o tratamento com sangria e meu licor de cicuta. Ela tinha um perfume suave de hibisco e notas mentoladas. Era uma mulher forte e gentil. Seu marido, Angus Thornac, era um homem de feições brutas e endurecidas na guerra. Contudo, era um homem justo e dedicado aos filhos e à esposa. A infeccção custou um pé, mas a vida dela estava salva. Em agradecimento, Angus me tornou seu 'Bror' (irmão) e exigiu que o vilarejo me recebesse como tal. Assim, de estranho hostilizado, me tornei o braço direito do líder da vila. O poder é um veneno doce e sedutor. Fácil se inebriar e viciar na tentação de exerce-lo. Contudo, eu já havia experimentado os efeitos nocivos dessa droga e dela eu mantive distância. Nunca usei de minha posição em causa própria. Dediquei todo meu esforço na construção de uma casa de cura. Lá, ofereci tratamento para todos da vila e qualquer pessoa que precisasse. A notícia correu rapidamente pela região e logo o vilarejo havia se tornado um polo efervescente de peregrinos, miseráveis e desafortunados, tomados pela peste, moléstia e enfermidades. Boatos são coisas vivas e como tal, se alimentam. Boatos devoram a verdade e proliferam exageros. De humilde médico, fui alçado ao patamar de curandeiro milagroso e então quase ao poste de um agente divino... Não tardou para que esse voo muito perto do Sol trouxesse consequências... Mas eu não percebi isso naquele momento. Minha visão já não era plena desde a infância e eu estava focado apenas nas vidas que eu podia salvar. Era minha virada no jogo contra a morte. Como fui tolo... Minha inimiga tinha muitas cartas a disposição para jogar contra mim. A presença constante de doentes trouxe problemas para Villamahar. Epidemias se espalharam e vidas foram ceifadas... Eu trabalhava noite e dia sem descanso, mas nunca era o bastante. Minha mente estava colapsando e meu corpo beirava a própria destruição... Foi quando Elara, a jovem filha de um moleiro veio até minha casa de cura pedindo por um chá para cólicas. Ela estava esperando sua primeira criança e estava ansiosa. Ela conversou comigo enquanto eu preparava um chá. Sua presença era um conforto para minha mente exausta. Ela ouvia meus lamentos sobre as perdas e me suportava. Pude chorar em seu colo quando não aguentei mais a pressão. Era a única com quem eu ousei expor a fraqueza. O motivo? Não sei ao certo. A inocência e gentileza dela me desarmava. Meu Bror era muito severo para que eu pudesse dividir os fardos... Ele já era responsável por manter a ordem em meio ao caos que eu trouxera para sua casa... Anthonia era uma mulher gentil, mas ela não tinha abertura para sutilezas. Seu pragmatismo era brutal: 'Se não pode trata-los, mande-os embora.' Por isso apenas Elara poderia me ouvir. Somente ela podia guardar minha dor. O marido de Elara era um rapaz trabalhador e educado, mas quando boatos de que sua esposa estaria frequentando em demasia a Casa de Cura do Changeling, ele foi tomado por impulsos de violência e ciúmes. Elara foi surrada e acabou perdendo o fruto de seu ventre. Enfurecido e convencido de que a culpa era minha, o jovem me desafiou para um duelo. Sem escolha, fui obrigado a aceitar o desafio de honra... Palavras não saciariam a sede de sangue e o ódio daquele incauto boçal. Angus presidiu o confronto. As armas escolhidas foram as adagas... O homem era maior e mais forte do que eu... Mas eu conhecia a fraqueza da carne. A fraqueza que eu tanto lutei contra... Os pontos vitais que eu protegia, agora eu precisava intencionalmente lesar. Cada corte que ele me fazia, eu aguentava. Me doía mais ferir aquele homem, do que ser ferido. Contudo, a voz de meu mentor ecoava em minha mente 'se você viver, poderá fazer o bem. A morte é a destruição da possibilidade.' Então, com lagrimas no meu olho, eu ataquei. Um único movimento com precisão cirúrgica e estava feito. Eu havia sido agente da minha única inimiga. Eu havia ceifado a vida de um homem. O povo aclamava e aplaudia minha habilidade, como se matar fosse um espetáculo. Eu vomitei. O sangue, que tantas vezes tive em mãos , agora era diferente. Era algo vil e venenoso. Elara então correu e me abraçou. Ela implorava por perdão e eu não podia suportar aquilo. Eu causei duas mortes naquele dia. E destruí a vida da minha preciosa amiga."
Ato 7 - O Aprendiz
"O dia seguinte trouxe um céu cinza e o sol encoberto por nuvens de chuva. O vagão de Nassus sacudia na estrada como um barco em uma tempestade. Ele dizia ao seu cavalo Horse: 'Vamos, vamos! O tempo é curto! Temos que chegar na próxima vila antes da chuva!'. Eu observava tudo com cautela, encostado em um canto do vagão. Nas paredes do carro, instrumentos semelhantes aos de Dullihan... Serras, facas, martelo... Mas impecavelmente limpos. O som de vidro vinha de uma bancada alquímica cheia de frascos fixos em suportes de bronze. Um cheiro forte de ervas emanava da mesa. Ao canto oposto de onde eu estava, uma cama com amarras de couro e uma estante de ingredientes. Livros de vários tamanhos, pergaminhos e ilustrações anatômicas estavam dispostos de forma organizada em várias prateleiras... Como aquilo não caia com o sacolejo do vagão? Esse mistério eu nunca desvendei. Chegamos e partimos daquela vila e de muitas outras... Entre um comentário sobre o tempo e as condições da estrada, direcionado a Horse, Nassus me contava histórias sobre quem ele era. Durante as sessões na cela, ele já havia me contado um pouco sobre sua trajetória. Nassus nasceu em Ambria. Foi educado para ser um Meistre em uma grande faculdade de Cirurgiões, mas ele era muito arrogante e prepotente. Acabou sendo expulso da ordem por desafiar seus mentores. Desgraçado, Nassus sucumbiu aos vícios. Álcool, mulheres, jogos... Ele perdeu rapidamente toda fortuna de sua família a acabou nas ruas, doente e miserável. Ele pedia pela morte todos os dias... Mas quando viu uma criança sufocando na rua ele imediatamente foi tomado por uma vontade súbita de agir. Sob protestos e ameaças dos transeuntes, Nassus debruçou-se sobre a criança e fez uma manobra para salva-la. O pai do menino queria espancar o mendigo imundo que se debruçava sobre seu filho inconsciente, mas quando a criança voltou a respirar, todos ficaram aliviados e espantados. O pai, confuso, deixou o 'agressor' fugir, para dar atenção ao menino que tossia e respirava avidamente. Nassus correu, sem tempo para justificativas, sem agradecimento, sem reconhecimento, mas orgulhoso de ter salvo aquela vida. Então um pensamento tomou conta de seu âmago: Se ele tivesse morrido, como tanto queria, aquele menino também estaria morto agora. Isso iluminou Nassus. Ele passou a dedicar sua vida ao bem dos outros. Nassus então passou a cuidar de si. Cortou seus vícios e passou a dedicar seu tempo a prestar cuidado as pessoas que não tinham acesso aos médicos. Juntando aos pouco as moedas que recebia de seus pacientes, dinheiro doado e nunca exigido, ele montou seu vagão. Um dia, ou melhor, em uma noite, ele conheceu uma bruxa chamada Adela... Ela era tudo que um homem poderia desejar... Lasciva, bela, irreverente... Quase selvagem... Mas extremamente habilidosa na cura. Nassus me poupou de detalhes sórdidos devido minha pouca idade, mas tenho certeza de que tiveram momentos ardentes, dado as expressões que ele fazia ao lembra-se dela... Mas Adela era algo que não podia ser ignorado. Ela foi uma mentora, guia e amante de Nassus por longos anos... Ela levou ele para fora das terras de Ambria em direção a Dovakar e ensinou sobre a Terra Antiga e seus segredos. Enquanto ele me contava essas histórias, ele me repassava os ensinamentos de Adela sobre botânica, fisiologia, anatomia, patologia... E assim eu aprendi. Nassus era um professor paciente, mas um pouco relapso. Ele divagava frequentemente em suas memórias, revivendo momentos sombrios e felizes em mesma proporção. Viajamos juntos por todos os cantos. Atendemos todo tipo de pessoa... Humanos, Goblins, Ogros, até um elfo... Uma vez... Alguém que parecia não estar doente... E usava um anel estranho... Quando ele foi embora, deixou esse anel como pagamento pelo serviço... Ele disse algo como 'De isso ao garoto. Isso é algo que deveria ter ficado com ele já há bastante tempo.' Eu só fui entender isso anos depois. Nossa viagem continuou por alguns anos, então Nassus começou a apresentar sinais de desgaste... Tosses frequentes e sangue... Então ele decidiu procurar a única pessoa que ele sabia que poderia ajuda-lo. Adela."
Ato 6- Recomeço
"Naquele momento eu imaginei que finalmente eu seria morto. Finalmente a dor iria acabar. Por um instante, senti alívio. Não tinha nada à perder. Então as palavras de Nassus ressoaram em minha mente como um trovão retumbante: 'Enquanto há vida, há esperança.' Então o alívio desapareceu e um medo novo surgiu. Pela primeira vez em muito tempo, temi pela minha vida. Afinal, eu tinha algo a perder: a esperança. Meu peito rufou como tambores da guerra. Meu corpo frágil se contraiu como um gato encurralado. Vendo minha reação, um brilho sutil passou no olhar rígido de meu pai... Ou devo dizer, do Capitão Von Heither. 'Então Hellicar... Parece que você realmente ainda quer viver. Impressionante. TALVEZ você realmente seja meu filho, de certa forma.' Ele se virou e comandou 'Me siga.' Ele saiu pela porta da cela. Coluna rígida como uma pilastra de um castelo. Mancando, sobre a perna deformada, claudiquei para fora da prisão. A luz das tochas no corredor estreito eram pequenos sois, ofuscantes e quentes. Eu desviei meu olho funcional para o chão e me forcei a andar. Inclemente, Von Heither caminhou imperioso abrindo as pesadas portas no corredor. Nenhuma palavra foi proferida. Eu não ousaria. E ele não desejava. O corredor terminou em uma porta estreita de madeira com reforços de ferro chumbado. Ele abriu a porta com uma chave imensa e pesada. A porta abriu com um rangido estridente. La fora, no céu uma lua cheia brilhava como um sol branco. Cada estrela era um diamante vívido em esplendor. Mas o chão... Ele era reservado para coisas rastejantes e quebradas. Coisas como eu. Os fundos da fortaleza se localizava nas margens da Dovakar Brilhante. As arvores eram retorcidas e enegrecidas. Vinhas semelhantes a forcas convidavam os condenados para balançarem. Olhos famintos de alguma fera espreitavam em meio a escuridão, então desapareceram. E o cheiro... O cheiro de mato úmido pelo orvalho, terra molhada e flores silvestres perfumavam aquele momento... Contudo, outro cheiro sequestrou meus sentidos naquele momento. Cheiro de morte. Von Heither apontou para uma cova larga, poucas dezenas de metros em frente. Dela emanava o miasma da morte. O perfume dos mortos deixados para apodrecer ao tempo. 'Então, Hellicar. Posso dar fim rapidamente a sua dor.' Von Heither tocou o cabo da espada que levava em sua cinta. Eu encarei seu olhar com meu olho funcional, desafiando sua ira. 'Eu quero... Eu MEREÇO viver.' O peso dessas palavras fez a postura de Von Heither vacilar por um instante, então se recompôs. 'Monstros, abominações, desgraçados e bárbaros são inimigos e não MERECEM viver. A morte é a cura para a doença que eles são.' Ele revelou um palmo do aço brilhante de sua cimitarra. 'Você está errado. A única inimiga é a morte. Enquanto houver vida, existirá esperança de que algo bom aconteça. Se eu não puder ter algo bom para mim, que eu seja algo bom para os outros... Eu não fui um bom filho?' Von Heither engasgou e calou as palavras duras as quais se preparava para disparar. Uma única lagrima escorria em seus olhos. 'Sim. Você era... Você foi... Vá. Desapareça e nunca mais volte para essas terras. Reze, reze à Deusa que eu não torne a ver-te neste mundo, ou vou te destruir. Corra para longe, demônio vil!' Então, com todas as forças que me restavam, eu corri. Nunca olhei para trás. Mas eu sei, no fundo, que aquele cheiro... Aquele sutil cheiro que senti era tristeza. Por horas sem fim me embrenhei no mato fechado. Os galhos espinhosos cobravam seu quinhão em sangue quando eu passava dentre eles, mas aquela dor era insignificante. O som de água corrente me guiou até um córrego. Lá eu renasci pela segunda vez. Eu não era mais um prisioneiro em uma cela, ou em uma gaiola de ouro. Eu era livre. Livre para ser o que eu quisesse ser. Enquanto houvesse vida, eu poderia renascer quantas vezes fosse preciso... Eu me adaptaria. E assim foi. Por semanas vaguei. Comi frutos e fungos. Logo aprendi quais que faziam mal. Então cheguei em uma vila de bárbaros. Consegui alguma ajuda, mas temi que minha presença pudesse trazer a atenção de Von Heither. Continuei meu caminho, de vila em vila, cada vez para mais longe das terras onde eu cresci. Passei fome, dormi na rua. Quase morri diversas vezes... Mas nunca desisti. Em uma noite fria, em um beco sujo detrás de uma taverna, eu estava prestes a congelar quando senti um perfume conhecido. Cheiro de ervas e flores silvestres... A consciência aos poucos foi me abandonando e então o escuro. Quando despertei, senti um calor confortável e o cheiro forte de ervas dominou meus sentidos. Eu ainda não havia aberto meu olho, mas podia sentir a luminosidade. Eu estava sobre algum tipo de veículo, pois sentia os solavancos cada vez que a roda atingia um buraco, ou pedra, da estrada. O som de tintilar de metal contra metal e contra madeira fazia uma sinfonia dissonante. Assim como o som omnipresente de vidro sendo sacolejado. 'Ah, acordaste enfim, meu jovem amigo... Fico feliz que o remédio esteja fazendo efeito tão rápido.' Então, pela primeira vez, percebi o gosto amargo de ervas que tomara conta da minha boca. Tossi e cuspi, mas aquele sabor pungente e ocre não abandonaria meus sentidos sem uma boa luta. 'Aqui, tome um pouco de água. Vai ajudar com o gosto ruim.' Abri o olho e vi Nassus estendendo um copo em minha direção. Bebi em um gole o conteúdo frio e insípido, lavando a garganta da amargura. Esse foi o momento do reencontro entre mim e meu mentor, meu verdadeiro pai."
Ato 5 - Perfume
"As torturas continuaram por vários ciclos solares... Os dias eram quase sempre iguais. Acordava com um banho de água gelada. Gritos exigindo a 'verdade'. Dor. Escuro. Frio. Contudo, as vezes algo mudava. Um cheiro novo e poderoso preenchia os corredores do calabouço. PERFUME. Nesses dias, minha mãe vinha me ver. E esses eram os piores dias. Era me alimentava com restos de comida. Me contava fofocas sobre pessoas que eu conheci, mas de que isso me importava? Então ela ficava subitamente violenta e me atacava furiosamente. Foi em uma dessas visitas em que perdi meu olho. Então ela retornava ao tom casual da conversa monologa dela. Com o tempo, o cheiro de perfume se tornou um signo de dor. O cheiro me trazia agonia e desespero... mas então, em um dia algo mudou. Eu senti um cheiro diferente... Um perfume distinto. Era um cheiro de ervas e flores silvestres, diferente do pesado e doce aroma de rosas que minha mãe usava. Meu corpo se contorceu ao sentir esse novo cheiro, entretanto, ele se tornaria meu aroma favorito muito em breve. O cheiro pertencia ao apotecário itinerante Nassus, o qual foi convocado pelo meu pai para manter-me vivo. Ele tratou meus ferimentos com habilidade, destreza e gentileza. Pela primeira vez, alguém me tocou com afeto. Inicialmente eu resisti ao toque, me debati e lutei. Até lembro de tê-lo atingido em seu rosto com um chute desesperado... Mas o velho apenas sorriu, limpou o sangue em seu lábio machucado e me acalmou com suavidade. Ele me explicou que não iria me fazer nenhum mal. Que estava lá para cuidar de meus machucados... Eu disse que queria morrer logo... Que aquele inferno não teria fim de outra forma... Mas o homem me interrompeu dizendo 'Escute bem, garoto. Enquanto houver vida, há esperança de que algo bom pode acontecer. Se você não puder ter algo de bom para si, seja então algo bom para os outros. A morte é nossa verdadeira inimiga. Ela destrói as possibilidades. No resto, por pior que uma vida seja, por mais cheia de dores e sofrimento, você carrega ainda o potencial infinito para mudança.' Aquilo não fazia muito sentido para mim naquela época. Talvez, mesmo hoje, eu ainda não compreenda a completa extensão e o poder daquela filosofia. Mas isso me encheu de esperança. Me deu uma motivação real para não desistir. Nassus cuidou de mim por vários meses. Quando meu corpo estava forte suficiente, ele era dispensado e Dullihan retornava. Ou pior... Minha mãe e seu perfume. E assim o tempo passou. Eu estava próximo de completar o terceiro inevrno em minha cela, quando um novo elemento se fez presente no tão familiar calabouço. Um perfume de vinho caro, jasmim e bigarade (Citrus aurantium). Era o conhecido cheiro do meu pai. Ele entrou na cela sem muita cerimonia. Ordenou que cortassem as amarras que me prendiam na cadeira. Então ele ordenou que os guardas fossem embora. 'Então. Você deve me responder a verdade de uma vez por todas. Onde está o VERDADEIRO Hellicar?' Eu tremi frente a imponente figura de autoridade em minha frente. Ele era um homem alto, forte e de constituição larga. Alguns homens sussurravam que ele tinha sangue de ogro para ser daquele tamanho, mas se calavam rapidamente quando ele passava. 'Eu... Sou... Hellicar...' Consegui dizer, tremendo, as palavras mais difíceis da minha vida. 'Eu sou Hellicar. Você é meu pai. E você está me matando.' As palavras de repente tomaram folego e saíram como uma disparada de abelhas furiosas. A acusação era ferina, direta e implacável. O inabalável comandante sentiu cada silaba atingi-lo como um rochedo disparado de uma catapulta contra sua muralha de tijolos. 'Pois bem. Que assim seja. Se essa é a verdade, então Hellicar nunca existiu.'
Ato 4- A Tortura
"Antes que eu pudesse sequer entender a razão pela qual o rosto de todos se convertera em uma máscara de medo, ódio, ou nojo, um golpe seco na minha nuca me nocauteou. Acordei com a cabeça latejando, os braços firmemente atados em uma cadeira dura, em uma sala escura com cheiro pesado de umidade e secreções humanas... Um cheiro de pânico permeava o lugar. Comecei a gritar pedidos de desculpas, jurando q nunca mais iria sair de casa, que não iria mais me envolver com as outras crianças... mas meus gritos só foram respondidos pelos ecos de minha própria voz, ressoando de forma ameaçadora pelos corredores do calabouço. Algumas horas se passaram. Eu sentia a voz falhando, após tanto gritar. A garganta estava seca e dolorida. Então escutei passos pesados no corredor e um tintilar de chaves. A robusta porta da cela se abriu com um rangido de protesto das dobradiças enferrujadas. Um homem vestindo roupas negras e um capuz cônico entrou na cela. Ele carregava em mãos uma tenaz e em seu cinturão uma miríade impressionante de facas e outros instrumentos com propósitos macabros. Eu senti um frio que veio do fundo da alma... Ele era Dullihan, o carrasco que meu pai trouxera de Ambria junto com seu pelotão... Ele dizia que 'para conquistar um lugar era necessário dobrar seus habitantes de maneira apropriada', mas Dullihan fazia mais do que 'dobrar'... Ele quebrava. Durante incontáveis ciclos solares, eu sofri incontáveis tipos de angústias... Privação de sono, falta de comida e água, torturas físicas das mais sutis e precisas, até as mais grotescas e brutais... Meu corpo foi destruído e consertado tantas vezes que eu perdi as contas... Mas sempre que me 'consertavam', algo ficava pra trás. Primeiro, meu olho esquerdo. Após um golpe tão forte que levei, ele estourou e precisou ser removido. Então foi minha perna direita. Ela ficou tão quebrada que nunca calcificou corretamente. Costelas, quebrei todas. Braços? Ambos foram fatiados deixando cicatrizes monstruosas. Tive hemorragia interna e quase morri algumas vezes... Mas, meu pai não permitiria que eu me fosse sem revelar onde estava o VERDADEIRO Hellicar... Por isso ele convocou um Cirurgião-Apotecário para tratar meu corpo debilitado... Esse homem era Nassus. E ele se tornaria meu melhor amigo e salvador. Ele me ensinará tudo que eu sei hoje... mas essa é uma história que fica pra próxima."
Ato 3 - O Sétimo Verão
"No celebrar do meu sétimo verão, minha mãe, como era de se esperar, convocou todos os habitantes da vila e arredores para celebrar. Eu estava apavorado. Era uma oportunidade única de finalmente conhecer as crianças que tanto observei em silêncio... Ylva e seu cachorro malhado... Yan, o garoto de 10 verões que era do tamanho de um adulto... Thork, o filho do açougueiro que praticava o oficio desde seu quarto verão! Eu conhecia todos! Mas... ELES não me conheciam. Sob fortes protestos de minha mãe e sob a vigília de meu pai, fui autorizado a me juntar com aquela turba alegre que comia e cantava em alegre celebração... Celebravam meu aniversário? Difícil saber. Mas quando a família mais rica da região te convida para comer de graça, ninguém ousa recusar... Timidamente, me aproximei de um grupo de crianças... Elas pararam sua falação sobre batatas e repolhos e me olharam com um ar de curiosidade, medo e desprezo... Como quando se vê um inseto exótico em uma folha, mas o animal voa em sua direção. Eu tentei me apresentar, mas as palavras travaram em minha garganta, como se fosse feitas de terra. Então, Yolan, a filha mais nova de um campones da região, me olhou com seus lindos olhos, azuis como profundas piscinas onde os animais se juntam para bebericar. 'Oi! Hoje é a celebração de seu sétimo ano, né? Por isso estamos aqui, né?' 'Sssi...sis...sim...' Consegui cuspir as palavras, que queimavam minha boca como se fossem urtiga brava. 'Eu... Eu queria... Eu queria... Saber se vocês querem brincar comigo...' As crianças se entreolharam, desconfiadas e intrigadas... 'O pequeno príncipe desceu do trono para rastejar no chiqueiro com seus servos?' Rompeu um garoto magro de cabelos ruivos eriçados e rosto marcado pela peste, Kuno, era seu nome... Então, em resposta quase ensaiada, sua irmã, Kunoesse, disparou: 'Isso mesmo Kuno! O principezinho quer brincar na lama Kuno... Vamos FAZER ele brincar na lama, Kuno!' Então, os dois saltaram sobre minhas pernas e me derrubaram. Kuno me puxou para uma poça de barro fresca, enquanto Kunoesse segurava meus braços... As outras crianças riam e aplaudiam em fervoroso êxtase... Anos de humilhação, vingados naquele instante pelos gêmeos justiceiros... Mas um rosto na multidão observava em choque... E não era Yolan, a qual se juntara ao coro de risos. Era minha mãe. Ela estava rubra, quase roxa de ódio... Os gêmeos demoraram para perceber o tamanho do problema que haviam encontrado... Foram poucos instantes ate que uma legião de soldados cercassem os dois e os deixa-se a beira da morte... As demais crianças fugiram, ou ao menos tentaram, enquanto eram atingidas por golpes impiedosos dos bastões da guarda leal ao meu pai. E nesse momento que a mudança ocorreu. Ao lavar a lama, meus olhos haviam se tornado maiores... Minhas orelhas ficaram pontudas e meu rosto perfeito estava deformado, como uma caricatura estranha de um humano. E assim eu fui rebaixado. De jóia e bibelô, para um suíno rastejando na lama... Um verme desprezível que minha mãe jamais seria capaz de amar... Uma abominação, semelhante aquelas aos quais meu pai jurou livrar o mundo... Eu me tornei um pária... Uma fraude... E isso trouxe para eles a questão: 'Onde está o VERDADEIRO Hellicar!?' E essa questão foi repetida muitas vezes durante as sessões constantes de tortura. Espancamento, privação de sono e comida, cortes e chicotadas... Meu 'pai' não pouparia esforços para que eu revelasse onde estava seu VERDADEIRO filho... Como se eu soubesse o que isso significava..."
Ato 2 - A Gaiola D'ouro
"Minha segunda memória mais antiga é de aproximadamente cinco anos depois da primeira. 'Porque?', alguns perguntariam, mas como é que eu vou saber? As memórias são assim... Eu acho... Enfim... Minha segunda memória é de meus 'pais'. Meu pai era um homem respeitado e temido. Um oficial da guarda Ambriana que havia sido destinado para um posto avançado em uma vila próxima ao território bárbaro. A expedição era um experimento para uma migração em massa que se aproximava. Minha 'mãe' era uma perfeita donzela. A nobreza que lhe faltava no sangue, comprara com o ouro de sua família tradicional de comerciantes. Ela era exuberante em joias, vestidos e perfumes. Tudo que pudesse torna-la o centro das atenções era visto como um artifício válido a ser usado... E sim, sua criança era o maior trunfo para ela. E assim foi por alguns anos. Meu pai ocupado, severo e distante. Minha mãe excessivamente perto, mas emocionalmente desligada. Eu era um bibelô para exibição. Um herdeiro para uma carreira militar brilhante. Um prodígio para ser exaltado... Mas... Eu era solitário. Nunca permitiriam que eu me envolvesse em brincadeiras com as crianças 'sujas' da vila... 'Bárbaros... É isso que elas são!' repetia meu pai. 'Nunca ande com essa plebe imunda Hellicar! Vão lhe passar doenças e vermes nojentos!' E eu obedeci... Eu via da janela, em minha gaiola de ouro, as crianças da vila trabalhando, brincando e se divertindo... Enquanto eu existia. E assim foi até meu sétimo verão."
Ato 1 - A Troca
"Minha primeira lembrança é estar enrolado em uma coberta quente. Braços gentis, mas rígidos me carregavam. Um choro ecoava na noite, mas não era minha voz. Outro bebê... Um bebê diferente... Chorava em seu berço imponente. Mal pude ver aquele embrulho barulhento, quando ele foi rapidamente apanhado no braço livre, enquanto eu era posto gentilmente em seu lugar. Não lembro das palavras exatas, mas ELE me falou algo gentil e me aninhou no berço feito com esmero por algum artesão talentoso. O bebê calou-se ao toque do dedo DELE, que o aninhou em seu colo. Antes de partir de volta para a noite, ele removeu minhas cobertas e cobriu-me com as cobertas finas de peles alojadas sobre o berço. Por último, ele disse algo que eu nunca soube o significado, mas posso imaginar que fosse "boa sorte, pequenino". Seu ultimo afago foi um suave abraço. Então, secretamente, ele me deixou um anel com sinete escondido dentro do travesseiro de plumas. Anos depois, descobri que ele fazia isso com todos os bebês aos quais trocara. Deixava um pequeno objeto de baixo valor com a criança e uma copia idêntica ele mantinha para si. Cada objeto era único no mundo, fora seu par. Só voltaria a ver aquela pessoa muitos anos depois... Mas essa é uma história para outro momento."