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Escrever sempre foi um hobbie e uma forma de tratamento para os momentos mais difíceis ao longo da minha formação como indivíduo. Nunca imaginei que meu trabalho viria ao encontro de tantas pessoas. Que tantos se identificariam com os sentimentos com os quais lido em meus trabalhos. Criei esse blog como um backup de minhas poesias, por medo de que se perdessem caso não as tivesse em rede. Hoje tenho um público cada vez maior e que, mesmo com minhas prolongadas ausências, continua a acompanhar minhas postagens. Agradeço pelo interesse, de verdade.

sábado, 7 de março de 2026

Ato 5 - Perfume

  "As torturas continuaram por vários ciclos solares... Os dias eram quase sempre iguais. Acordava com um banho de água gelada. Gritos exigindo a 'verdade'. Dor. Escuro. Frio. Contudo, as vezes algo mudava. Um cheiro novo e poderoso preenchia os corredores do calabouço. PERFUME. Nesses dias, minha mãe vinha me ver. E esses eram os piores dias. Era me alimentava com restos de comida. Me contava fofocas sobre pessoas que eu conheci, mas de que isso me importava? Então ela ficava subitamente violenta e me atacava furiosamente. Foi em uma dessas visitas em que perdi meu olho. Então ela retornava ao tom casual da conversa monologa dela. Com o tempo, o cheiro de perfume se tornou um signo de dor. O cheiro me trazia agonia e desespero... mas então, em um dia algo mudou. Eu senti um cheiro diferente... Um perfume distinto. Era um cheiro de ervas e flores silvestres, diferente do pesado e doce aroma de rosas que minha mãe usava. Meu corpo se contorceu ao sentir esse novo cheiro, entretanto, ele se tornaria meu aroma favorito muito em breve. O cheiro pertencia ao apotecário itinerante Nassus, o qual foi convocado pelo meu pai para manter-me vivo. Ele tratou meus ferimentos com habilidade, destreza e gentileza. Pela primeira vez, alguém me tocou com afeto. Inicialmente eu resisti ao toque, me debati e lutei. Até lembro de tê-lo atingido em seu rosto com um chute desesperado... Mas o velho apenas sorriu, limpou o sangue em seu lábio machucado e me acalmou com suavidade. Ele me explicou que não iria me fazer nenhum mal. Que estava lá para cuidar de meus machucados... Eu disse que queria morrer logo... Que aquele inferno não teria fim de outra forma... Mas o homem me interrompeu dizendo 'Escute bem, garoto. Enquanto houver vida, há esperança de que algo bom pode acontecer. Se você não puder ter algo de bom para si, seja então algo bom para os outros. A morte é nossa verdadeira inimiga. Ela destrói as possibilidades. No resto, por pior que uma vida seja, por mais cheia de dores e sofrimento, você carrega ainda o potencial infinito para mudança.' Aquilo não fazia muito sentido para mim naquela época. Talvez, mesmo hoje, eu ainda não compreenda a completa extensão e o poder daquela filosofia. Mas isso me encheu de esperança. Me deu uma motivação real para não desistir. Nassus cuidou de mim por vários meses. Quando meu corpo estava forte suficiente, ele era dispensado e Dullihan retornava. Ou pior... Minha mãe e seu perfume. E assim o tempo passou. Eu estava próximo de completar o terceiro inevrno em minha cela, quando um novo elemento se fez presente no tão familiar calabouço. Um perfume de vinho caro, jasmim e bigarade (Citrus aurantium). Era o conhecido cheiro do meu pai. Ele entrou na cela sem muita cerimonia. Ordenou que cortassem as amarras que me prendiam na cadeira. Então ele ordenou que os guardas fossem embora. 'Então. Você deve me responder a verdade de uma vez por todas. Onde está o VERDADEIRO Hellicar?' Eu tremi frente a imponente figura de autoridade em minha frente. Ele era um homem alto, forte e de constituição larga. Alguns homens sussurravam que ele tinha sangue de ogro para ser daquele tamanho, mas se calavam rapidamente quando ele passava. 'Eu... Sou... Hellicar...' Consegui dizer, tremendo, as palavras mais difíceis da minha vida. 'Eu sou Hellicar. Você é meu pai. E você está me matando.' As palavras de repente tomaram folego e saíram como uma disparada de abelhas furiosas. A acusação era ferina, direta e implacável. O inabalável comandante sentiu cada silaba atingi-lo como um rochedo disparado de uma catapulta contra sua muralha de tijolos. 'Pois bem. Que assim seja. Se essa é a verdade, então Hellicar nunca existiu.'

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