"Naquele momento eu imaginei que finalmente eu seria morto. Finalmente a dor iria acabar. Por um instante, senti alívio. Não tinha nada à perder. Então as palavras de Nassus ressoaram em minha mente como um trovão retumbante: 'Enquanto há vida, há esperança.' Então o alívio desapareceu e um medo novo surgiu. Pela primeira vez em muito tempo, temi pela minha vida. Afinal, eu tinha algo a perder: a esperança. Meu peito rufou como tambores da guerra. Meu corpo frágil se contraiu como um gato encurralado. Vendo minha reação, um brilho sutil passou no olhar rígido de meu pai... Ou devo dizer, do Capitão Von Heither. 'Então Hellicar... Parece que você realmente ainda quer viver. Impressionante. TALVEZ você realmente seja meu filho, de certa forma.' Ele se virou e comandou 'Me siga.' Ele saiu pela porta da cela. Coluna rígida como uma pilastra de um castelo. Mancando, sobre a perna deformada, claudiquei para fora da prisão. A luz das tochas no corredor estreito eram pequenos sois, ofuscantes e quentes. Eu desviei meu olho funcional para o chão e me forcei a andar. Inclemente, Von Heither caminhou imperioso abrindo as pesadas portas no corredor. Nenhuma palavra foi proferida. Eu não ousaria. E ele não desejava. O corredor terminou em uma porta estreita de madeira com reforços de ferro chumbado. Ele abriu a porta com uma chave imensa e pesada. A porta abriu com um rangido estridente. La fora, no céu uma lua cheia brilhava como um sol branco. Cada estrela era um diamante vívido em esplendor. Mas o chão... Ele era reservado para coisas rastejantes e quebradas. Coisas como eu. Os fundos da fortaleza se localizava nas margens da Dovakar Brilhante. As arvores eram retorcidas e enegrecidas. Vinhas semelhantes a forcas convidavam os condenados para balançarem. Olhos famintos de alguma fera espreitavam em meio a escuridão, então desapareceram. E o cheiro... O cheiro de mato úmido pelo orvalho, terra molhada e flores silvestres perfumavam aquele momento... Contudo, outro cheiro sequestrou meus sentidos naquele momento. Cheiro de morte. Von Heither apontou para uma cova larga, poucas dezenas de metros em frente. Dela emanava o miasma da morte. O perfume dos mortos deixados para apodrecer ao tempo. 'Então, Hellicar. Posso dar fim rapidamente a sua dor.' Von Heither tocou o cabo da espada que levava em sua cinta. Eu encarei seu olhar com meu olho funcional, desafiando sua ira. 'Eu quero... Eu MEREÇO viver.' O peso dessas palavras fez a postura de Von Heither vacilar por um instante, então se recompôs. 'Monstros, abominações, desgraçados e bárbaros são inimigos e não MERECEM viver. A morte é a cura para a doença que eles são.' Ele revelou um palmo do aço brilhante de sua cimitarra. 'Você está errado. A única inimiga é a morte. Enquanto houver vida, existirá esperança de que algo bom aconteça. Se eu não puder ter algo bom para mim, que eu seja algo bom para os outros... Eu não fui um bom filho?' Von Heither engasgou e calou as palavras duras as quais se preparava para disparar. Uma única lagrima escorria em seus olhos. 'Sim. Você era... Você foi... Vá. Desapareça e nunca mais volte para essas terras. Reze, reze à Deusa que eu não torne a ver-te neste mundo, ou vou te destruir. Corra para longe, demônio vil!' Então, com todas as forças que me restavam, eu corri. Nunca olhei para trás. Mas eu sei, no fundo, que aquele cheiro... Aquele sutil cheiro que senti era tristeza. Por horas sem fim me embrenhei no mato fechado. Os galhos espinhosos cobravam seu quinhão em sangue quando eu passava dentre eles, mas aquela dor era insignificante. O som de água corrente me guiou até um córrego. Lá eu renasci pela segunda vez. Eu não era mais um prisioneiro em uma cela, ou em uma gaiola de ouro. Eu era livre. Livre para ser o que eu quisesse ser. Enquanto houvesse vida, eu poderia renascer quantas vezes fosse preciso... Eu me adaptaria. E assim foi. Por semanas vaguei. Comi frutos e fungos. Logo aprendi quais que faziam mal. Então cheguei em uma vila de bárbaros. Consegui alguma ajuda, mas temi que minha presença pudesse trazer a atenção de Von Heither. Continuei meu caminho, de vila em vila, cada vez para mais longe das terras onde eu cresci. Passei fome, dormi na rua. Quase morri diversas vezes... Mas nunca desisti. Em uma noite fria, em um beco sujo detrás de uma taverna, eu estava prestes a congelar quando senti um perfume conhecido. Cheiro de ervas e flores silvestres... A consciência aos poucos foi me abandonando e então o escuro. Quando despertei, senti um calor confortável e o cheiro forte de ervas dominou meus sentidos. Eu ainda não havia aberto meu olho, mas podia sentir a luminosidade. Eu estava sobre algum tipo de veículo, pois sentia os solavancos cada vez que a roda atingia um buraco, ou pedra, da estrada. O som de tintilar de metal contra metal e contra madeira fazia uma sinfonia dissonante. Assim como o som omnipresente de vidro sendo sacolejado. 'Ah, acordaste enfim, meu jovem amigo... Fico feliz que o remédio esteja fazendo efeito tão rápido.' Então, pela primeira vez, percebi o gosto amargo de ervas que tomara conta da minha boca. Tossi e cuspi, mas aquele sabor pungente e ocre não abandonaria meus sentidos sem uma boa luta. 'Aqui, tome um pouco de água. Vai ajudar com o gosto ruim.' Abri o olho e vi Nassus estendendo um copo em minha direção. Bebi em um gole o conteúdo frio e insípido, lavando a garganta da amargura. Esse foi o momento do reencontro entre mim e meu mentor, meu verdadeiro pai."
Este é o cemitério onde enterro meus sentimentos. Cada poema aqui publicado, tem a exclusiva razão de ser um desabafo para mim mesmo. Se quizer compartilhar, a vontade. Mas cuidado, se se aprofundar de mais no meu escuro pode se perder.
O Autor
- Dalua - O Poeta Sombrio
- Escrever sempre foi um hobbie e uma forma de tratamento para os momentos mais difíceis ao longo da minha formação como indivíduo. Nunca imaginei que meu trabalho viria ao encontro de tantas pessoas. Que tantos se identificariam com os sentimentos com os quais lido em meus trabalhos. Criei esse blog como um backup de minhas poesias, por medo de que se perdessem caso não as tivesse em rede. Hoje tenho um público cada vez maior e que, mesmo com minhas prolongadas ausências, continua a acompanhar minhas postagens. Agradeço pelo interesse, de verdade.
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