"Essa lembrança é mais recente. Cinco verões e um inverno atrás... Dois verões desde a morte de Nassus e meu vigésimo quinto verão. Depois de me despedir de Adela com um certo dessabor, conduzi o vagão de Nassus... Conduzi o MEU vagão para fora dos domínios da Bruxa... Lá ficaram os restos de meu amado professor. Parece que nossa inimiga venceu ele afinal. Adela resistiu e reclamou para que eu não deixa-se o corpo dele lá, mas atendi o desejo final de meu mestre. Se a bruxa profanar o corpo, que seja. Talvez aquele velho safado até estivesse contando com isso... De qualquer forma, assim eu parti. Deixei meu amado pai em seu leito eterno e assumi as rédeas de Horse. Vaguei como sempre. Estradas e mais estradas sem fim. Evitei bandidos e soldados. Cuidei de feridos e enfermos. Salvei muitos e lamentei a perda de inúmeros. Minha inimiga e eu travamos uma partida intensa de xadrez... Cada qual tomando peças um do outro, mas ela sempre me pondo em xeque. Foi nessa busca incessante por uma cura definitiva para a morte, que acabei chegando em Villamahar. Esse isolado vilarejo, próximo as margens do Rio Anorath, tinha um perfume diferente. Um cheiro salino de maresia, trazido pelas águas do rio até a costa. A geografia e clima do local era propícia para o cultivo de certas ervas raras chamadas Cicuta (Conium maculatum). Ao chegar em Villamahar, fui recebido com hostilidade pelo povo. Obviamente um Changeling caolho, manco e cheio de cicatrizes levando uma carruagem cheia de poções e instrumentos afiados traria desconfiança ao pacato povoado do norte. Contudo, fui construindo minha reputação aos poucos. Ofereci tratamento para as mazelas do povoado, em troca recebi alimento e abrigo. Em poucos dias fui aceito como membro honorário da vila, após tratar de uma infecção severa que afligia a esposa do lorde local. Anthonia sobreviveu e se recuperou bem, após o tratamento com sangria e meu licor de cicuta. Ela tinha um perfume suave de hibisco e notas mentoladas. Era uma mulher forte e gentil. Seu marido, Angus Thornac, era um homem de feições brutas e endurecidas na guerra. Contudo, era um homem justo e dedicado aos filhos e à esposa. A infeccção custou um pé, mas a vida dela estava salva. Em agradecimento, Angus me tornou seu 'Bror' (irmão) e exigiu que o vilarejo me recebesse como tal. Assim, de estranho hostilizado, me tornei o braço direito do líder da vila. O poder é um veneno doce e sedutor. Fácil se inebriar e viciar na tentação de exerce-lo. Contudo, eu já havia experimentado os efeitos nocivos dessa droga e dela eu mantive distância. Nunca usei de minha posição em causa própria. Dediquei todo meu esforço na construção de uma casa de cura. Lá, ofereci tratamento para todos da vila e qualquer pessoa que precisasse. A notícia correu rapidamente pela região e logo o vilarejo havia se tornado um polo efervescente de peregrinos, miseráveis e desafortunados, tomados pela peste, moléstia e enfermidades. Boatos são coisas vivas e como tal, se alimentam. Boatos devoram a verdade e proliferam exageros. De humilde médico, fui alçado ao patamar de curandeiro milagroso e então quase ao poste de um agente divino... Não tardou para que esse voo muito perto do Sol trouxesse consequências... Mas eu não percebi isso naquele momento. Minha visão já não era plena desde a infância e eu estava focado apenas nas vidas que eu podia salvar. Era minha virada no jogo contra a morte. Como fui tolo... Minha inimiga tinha muitas cartas a disposição para jogar contra mim. A presença constante de doentes trouxe problemas para Villamahar. Epidemias se espalharam e vidas foram ceifadas... Eu trabalhava noite e dia sem descanso, mas nunca era o bastante. Minha mente estava colapsando e meu corpo beirava a própria destruição... Foi quando Elara, a jovem filha de um moleiro veio até minha casa de cura pedindo por um chá para cólicas. Ela estava esperando sua primeira criança e estava ansiosa. Ela conversou comigo enquanto eu preparava um chá. Sua presença era um conforto para minha mente exausta. Ela ouvia meus lamentos sobre as perdas e me suportava. Pude chorar em seu colo quando não aguentei mais a pressão. Era a única com quem eu ousei expor a fraqueza. O motivo? Não sei ao certo. A inocência e gentileza dela me desarmava. Meu Bror era muito severo para que eu pudesse dividir os fardos... Ele já era responsável por manter a ordem em meio ao caos que eu trouxera para sua casa... Anthonia era uma mulher gentil, mas ela não tinha abertura para sutilezas. Seu pragmatismo era brutal: 'Se não pode trata-los, mande-os embora.' Por isso apenas Elara poderia me ouvir. Somente ela podia guardar minha dor. O marido de Elara era um rapaz trabalhador e educado, mas quando boatos de que sua esposa estaria frequentando em demasia a Casa de Cura do Changeling, ele foi tomado por impulsos de violência e ciúmes. Elara foi surrada e acabou perdendo o fruto de seu ventre. Enfurecido e convencido de que a culpa era minha, o jovem me desafiou para um duelo. Sem escolha, fui obrigado a aceitar o desafio de honra... Palavras não saciariam a sede de sangue e o ódio daquele incauto boçal. Angus presidiu o confronto. As armas escolhidas foram as adagas... O homem era maior e mais forte do que eu... Mas eu conhecia a fraqueza da carne. A fraqueza que eu tanto lutei contra... Os pontos vitais que eu protegia, agora eu precisava intencionalmente lesar. Cada corte que ele me fazia, eu aguentava. Me doía mais ferir aquele homem, do que ser ferido. Contudo, a voz de meu mentor ecoava em minha mente 'se você viver, poderá fazer o bem. A morte é a destruição da possibilidade.' Então, com lagrimas no meu olho, eu ataquei. Um único movimento com precisão cirúrgica e estava feito. Eu havia sido agente da minha única inimiga. Eu havia ceifado a vida de um homem. O povo aclamava e aplaudia minha habilidade, como se matar fosse um espetáculo. Eu vomitei. O sangue, que tantas vezes tive em mãos , agora era diferente. Era algo vil e venenoso. Elara então correu e me abraçou. Ela implorava por perdão e eu não podia suportar aquilo. Eu causei duas mortes naquele dia. E destruí a vida da minha preciosa amiga."
Este é o cemitério onde enterro meus sentimentos. Cada poema aqui publicado, tem a exclusiva razão de ser um desabafo para mim mesmo. Se quizer compartilhar, a vontade. Mas cuidado, se se aprofundar de mais no meu escuro pode se perder.
O Autor
- Dalua - O Poeta Sombrio
- Escrever sempre foi um hobbie e uma forma de tratamento para os momentos mais difíceis ao longo da minha formação como indivíduo. Nunca imaginei que meu trabalho viria ao encontro de tantas pessoas. Que tantos se identificariam com os sentimentos com os quais lido em meus trabalhos. Criei esse blog como um backup de minhas poesias, por medo de que se perdessem caso não as tivesse em rede. Hoje tenho um público cada vez maior e que, mesmo com minhas prolongadas ausências, continua a acompanhar minhas postagens. Agradeço pelo interesse, de verdade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário