"O último som que ouvi foi um choro desesperado. Não por minha causa, mas por outra vida ceifada em meu nome. A última coisa que vi foi uma multidão enlutada, enfurecida, feliz de ver que o 'mal' havia sido expurgado dali. Nenhum rosto trazia compaixão. Nenhum afeto. Elara... Eu queria Elara... Um último abraço... Por que não ouvi ela? Por que deixei que partisse? Bom. Melhor assim, ou ela estaria pendurada em uma forca ao seu lado. O ultimo cheiro que senti foi o perfume de vinho caro e jasmim e bigarade (Citrus aurantium). O Inquisidor Chefe tinha o mesmo cheiro... Então o cadafalso improvisado foi solto e eu cai. Um som de estalo foi ouvido por todos, mas eu já não podia ouvir. Fui imediatamente devorado por uma escuridão sem fim. Essa foi a minha morte. Enfim, cara-a-cara com minha adversária... Eu à desafiei e perdi. Eu lutei a luta justa, mas a Morte não segue regras. Ela impõe as regras. Um tempo infinito se passou. Minha alma em suspensão no firmamento. Entre estrelas, o Sol e a Lua, vaguei livre pela primeira vez. Mas aquilo não era liberdade. Era a destruição das possibilidades, o fim da esperança. Eu perdi. Era o fim. Então... Por que? Por que eu ainda sentia... Sentia o peso da terra... O cheiro da umidade e da podridão? Então despertei. O escuro omnipresente ocupou minha visão. Tentei respirar, mas terra entrou em minha boca. Não senti vontade de tossir, nem falta de ar. Meu peito não estava agitado. Na verdade, ele parecia nem estar batendo. Tentei me mover, mas algo fez resistência. Terra. Uma certeza fria foi tomando forma. Eu estava Morto. Mas não estava. Isso estranhamente não me assustava. Parecia certo e extremamente errado ao mesmo tempo... Uma última ironia de minha inimiga... Claro... Ela não me aceitaria em seus braços... Ela me negou seu abraço final. Agora eu jazia na terra como um cadáver... Mas eu estava vivo... Ou quase."
..................Poemas Sombrios..................
Este é o cemitério onde enterro meus sentimentos. Cada poema aqui publicado, tem a exclusiva razão de ser um desabafo para mim mesmo. Se quizer compartilhar, a vontade. Mas cuidado, se se aprofundar de mais no meu escuro pode se perder.
O Autor
- Dalua - O Poeta Sombrio
- Escrever sempre foi um hobbie e uma forma de tratamento para os momentos mais difíceis ao longo da minha formação como indivíduo. Nunca imaginei que meu trabalho viria ao encontro de tantas pessoas. Que tantos se identificariam com os sentimentos com os quais lido em meus trabalhos. Criei esse blog como um backup de minhas poesias, por medo de que se perdessem caso não as tivesse em rede. Hoje tenho um público cada vez maior e que, mesmo com minhas prolongadas ausências, continua a acompanhar minhas postagens. Agradeço pelo interesse, de verdade.
sábado, 7 de março de 2026
Ato 11 - A Inquisição
"Algum tempo se passou desde a noite fatídica em que Draskull bateu em minha porta. O avanço da corrupção havia se estabilizado, mas ainda me causava constante agonia. Entre delírios de febre e dor, dediquei minhas últimas forças na busca de algo que pudesse reverter esse quadro. Nada nas anotações de Nassus, ou mesmo os conhecimentos proibidos da bruxa Adela falavam sobre essa condição. Precisei navegar sozinho em águas desconhecidas e traiçoeiras. Isso me exigia tempo... Mas o tempo estava ao favor de minha adversária. Ela podia esperar até o final dos tempos. Eu não. Como a própria corrupção que se espalhava, os boatos também se intensificavam. De santo milagroso, fui rapidamente convertido em demônio da pestilência. Não tardou até que agentes da Inquisição descobrissem sobre minha condição. Mesmo longe da influência da Igreja de Prios, mesmo no isolamento de Villamahar, a longa mão da Inquisição chegou até minha porta. Fui arrastado para fora da minha Casa de Cura e levado até o centro do vilarejo. Rostos assustados assistiam com curiosidade e pavor... Eles não temiam por mim... Temiam A MIM. Mesmo Angus e Anthonia abaixavam seus rostos e desviavam o olhar. Busquei na multidão alguém, alguma pessoa dentre tantas, que me visse com compaixão... Nada. Apenas uma massa amorfa de rostos estranhos, distantes e indiferentes. Fui despido em frente a todos. Minha corrupção, exibida como prova de um crime imperdoável. Gritos e vaias ressoaram. Acusações de feitiçaria, profanação e depravação ecoaram em coro. Vizinhos acusavam uns aos outros de terem compactuado com minha mácula e um novo medo brotou: eles poderiam executar mais pessoas além de mim, se acharem que estão mancomunadas comigo! 'PAREM!' gritei com todas as forças que eu tinha. A multidão se calou por um instante e retomou a balburdia ainda mais frenética. 'ESCUTEM! NÍNGUEM PARTICIPOU DISSO. EU SOU O ÚNICO QUE DEVE SOFRER!' - Mas a Inquisição não escutou. Arbitrariamente, passaram a capturar os acusados e arrasta-los para interrogatório. Vi Angus lutando contra um Inquisidor antes de ser atingido por uma alabarda. Gritei com todas as forças, mas minha voz não tinha nenhum poder ali. A perseguição durou algumas horas. No final da tarde, dezenas de pessoas estavam amarradas em pilares, sendo chicoteadas e interrogadas. Entre os Inquisidores, eu podia jurar ter visto alguém cuja forma me remeteu Dullihan e seu capuz cônico. Mas eu não tinha mais forças e nem tempo para pensar nisso. Ao anoitecer daquele dia, fui condenado a execução. Outras doze pessoas, incluindo Anthonia e seus filhos, também seriam executadas por conspirarem com o profano. Ao me deparar com a forca, lembrei de Von Heither, 'Você MERECE MORRER' . Era inevitável. Aquilo era um xeque mate. Foi uma árdua e injusta disputa e ela iria acabar agora. A sentença foi lida. Uma prece à Prios foi entoada. A corda foi amarrada em meu pescoço. Com o último raio de luz do Sol e o despontar da primeira estrela, a Escuridão me encobriu e meu corpo balançou."
Ato 10 - A Queda
"Meus dias foram mais sombrios após aquele duelo. Algo se quebrou dentro de mim, morrendo em meus braços junto com aquele homem. Segui atuando em minhas responsabilidades. Angus achou tudo aquilo hilário... 'Eu não imaginava que você tivesse um lobo dentro de você, meu Bror! Confesso que temi pela sua vida quando o duelo foi convocado. Mas o homem tinha o direito de exigir reparação da honra... Eu só podia confiar que os Deuses protegeriam você. Mas eu estava errado! Você foi um verdadeiro Stridskämpe (combatente)!'. Por mais bem intencionadas que fossem as palavras de Angus, elas me atingiam como uma marreta sobre o aço quente de uma forja. Aos poucos, fui me afastando da Casa Grande e me restringi ao clausuro da Casa de Cura... Cura... Irônico. Em nada aquele lugar podia me ajudar a curar a mácula que eu carregava. Esse xeque de minha adversária quebrou minhas defesas e o pior ainda estava por vir. Elara continuou vindo me visitar, apesar dos meus protestos. Ela se culpava tanto quanto eu, ou até mais. Isso me corroía. Ela era jovem, bonita e tinha um perfume delicioso de flores do campo e lavanda. Eu não suportava a ideia de ter destruído seu futuro. Nenhum homem iria dividir seu teto com ela. A fama de infiel destruiu qualquer chance de que isso ocorresse. Ela tornou-se uma pária na vila e por isso eu não podia rejeitar suas visitas. Eu era tudo que ela tinha. Com o tempo, Elara aprendeu um pouco sobre medicina. Ela então passou a me ajudar no tratamento dos enfermos, principalmente as grávidas. Algumas pessoas da vila começaram a maldizer a Casa de Cura, dizendo que era um lugar sujo onde a luxuria e a promiscuidade tomavam conta. Novamente, os boatos cresciam, famintos por sangue. Os peregrinos continuavam vindo de todas as partes. Homens ricos e pobres. Jovens e velhos. Todos queriam uma resposta que aplacasse seus sofrimentos. Eu nunca recusava ninguém, mas Elara sim. Ela começou a selecionar quem era prioridade, quem poderíamos ajudar e quem era um 'caso perdido'. Isso gerou um conflito. Pela primeira vez, brigamos. Eu disse 'Você não tem o direito de decidir quem pode ser salvo! Temos que atender TODOS de forma igual!' e ela me respondeu 'Você NÃO PODE salvar a todos! Você esta se destruindo! Pare! Você precisa descansar! Você não vê que a culpa está te matando? Olhe para si! Está magro! Está pálido! Você está mais morto do que vivo, Hellicar! Você precisa cuidar de si, ou não poderá ajudar mais ninguém!'. Eu sabia que ela tinha razão, mas meu orgulho me cegou. Eu PRECISAVA salvar todos... Eu PRECISAVA... Era uma obsessão. Cada vida que eu salvava diminuía um pouco a culpa... Mas a cada morte, a culpa era redobrada. Era uma matemática cruel. Jogar contra a morte era a inevitabilidade da derrota, mas eu u era teimoso demais para desistir. Então, ela partiu. Sem suportar acompanhar meu declínio, ela me deixou. No momento, eu estava anestesiado para essa dor. Tudo que eu podia pensar era no próximo paciente. Na próxima vida que eu salvaria. Eu derrotaria a morte. Eu PRECISAVA. Eu precisava... Mas... Por quê? Eu não pensava mais. Eu agia. E assim eu salvava vidas. Uma noite, um homem bateu na porta da Casa de Cura. Ele vestia um manto negro que lhe encobria a face. Seu cheiro era de algo podre, doentio e sanguinolento. Me lembrava diretamente do cheiro do calabouço e da condenação. Ele entrou sem cerimonia, jogando um saco cheio de ouro sobre minha mesa. 'Então... Você é o tal milagroso curandeiro... O agente divino enviado pela própria Deusa pra curar a morte...'. Eu não sabia o que responder. O tom do homem era de desprezo e descrença, mas tinha um toque de desespero e expectativa... Um sintoma de urgência. 'Me cure então! Se não for capaz, você sofrerá as consequências...'. Lembro de pensar 'Consequências? Eu já sofro elas...', contudo o que o homem prometera era algo muito pior do que eu podia imaginar. Ele então tirou suas roupas e revelou sua mácula. Fístulas e pústulas negras como a noite sem luar. Deformações da carne que desafiavam a lógica... Era para ele estar morto... Aquilo me intrigou... Ascendeu uma chama que a muito havia se apagado em mim: curiosidade. Examinei sua condição, seus sintomas... Aquilo não era uma doença comum... Era Corrupção. Por três dias e três noites tranquei a Casa de Cura. Pela primeira vez, recusei pacientes. Draskull, como se chamava aquele homem, exigia toda a atenção que eu tinha. Ele era agressivo, bruto e intempestivo. Frequentemente me chamava de fraude, de aberração de Davokar, mas eu não dava importância. Busquei nos registros de Adela as informações sobre a Corrupção e me dediquei a tratar as feridas borbulhantes. Mas aquilo estava muito além da minha capacidade... Talvez, além da capacidade de qualquer um. Fui obrigado a admitir minha ignorância e Draskull vociferou injurias e amaldiçoou-me. Quando ele partiu, me senti estranhamente aliviado. A presença daquele homem era nefasta... Fazia as sombras se alargarem e o frio se intensificar. As palavras dele me assombraram por vários dias e sonhei por muitas noites com sua ameaça. Então a maldição se concretizou. Começaram a surgir feridas negras na minha pele. Então, fístulas irromperam e espalharam-se pelo corpo. Febre alta e dores atrozes, piores do que qualquer tortura que Dullihan pudesse me propor. Draskull havia me maculado com sua maldição... A mesma que ele suportava. Logo, a vila soube da minha condição. Os boatos de que a Corrupção havia se alastrado se espalharam como fogo selvagem. Peregrinos foram expulsos, doentes comuns foram isolados. Nem Angus ousava me ver em meu estado maculado. Eu estava apodrecendo em vida e não podia fazer nada para impedir. A minha inimiga tinha me dado um golpe fatal... Eu chorava pensando em Elara, em Nassus, em minha infância antes da mudança... Pelo menos Elara e Nassus não estariam aqui para ver o meu tormento. As palavras de Von Heither ecoavam na minha mente: 'Você merece morrer'. Esse pensamento me perfurava como uma adaga. Doía mais do que a própria degradação da carne. Quanto tempo mais eu iria suportar? Eu... Estava perdendo as esperanças. Quase desejava a morte... Mas isso seria trair meu salvador... ' Se há vida, existe a esperança'... Mas até quando?"
Ato 9 - Recomeço e Consequências
"Essa lembrança é mais recente. Cinco verões e um inverno atrás... Dois verões desde a morte de Nassus e meu vigésimo quinto verão. Depois de me despedir de Adela com um certo dessabor, conduzi o vagão de Nassus... Conduzi o MEU vagão para fora dos domínios da Bruxa... Lá ficaram os restos de meu amado professor. Parece que nossa inimiga venceu ele afinal. Adela resistiu e reclamou para que eu não deixa-se o corpo dele lá, mas atendi o desejo final de meu mestre. Se a bruxa profanar o corpo, que seja. Talvez aquele velho safado até estivesse contando com isso... De qualquer forma, assim eu parti. Deixei meu amado pai em seu leito eterno e assumi as rédeas de Horse. Vaguei como sempre. Estradas e mais estradas sem fim. Evitei bandidos e soldados. Cuidei de feridos e enfermos. Salvei muitos e lamentei a perda de inúmeros. Minha inimiga e eu travamos uma partida intensa de xadrez... Cada qual tomando peças um do outro, mas ela sempre me pondo em xeque. Foi nessa busca incessante por uma cura definitiva para a morte, que acabei chegando em Villamahar. Esse isolado vilarejo, próximo as margens do Rio Anorath, tinha um perfume diferente. Um cheiro salino de maresia, trazido pelas águas do rio até a costa. A geografia e clima do local era propícia para o cultivo de certas ervas raras chamadas Cicuta (Conium maculatum). Ao chegar em Villamahar, fui recebido com hostilidade pelo povo. Obviamente um Changeling caolho, manco e cheio de cicatrizes levando uma carruagem cheia de poções e instrumentos afiados traria desconfiança ao pacato povoado do norte. Contudo, fui construindo minha reputação aos poucos. Ofereci tratamento para as mazelas do povoado, em troca recebi alimento e abrigo. Em poucos dias fui aceito como membro honorário da vila, após tratar de uma infecção severa que afligia a esposa do lorde local. Anthonia sobreviveu e se recuperou bem, após o tratamento com sangria e meu licor de cicuta. Ela tinha um perfume suave de hibisco e notas mentoladas. Era uma mulher forte e gentil. Seu marido, Angus Thornac, era um homem de feições brutas e endurecidas na guerra. Contudo, era um homem justo e dedicado aos filhos e à esposa. A infeccção custou um pé, mas a vida dela estava salva. Em agradecimento, Angus me tornou seu 'Bror' (irmão) e exigiu que o vilarejo me recebesse como tal. Assim, de estranho hostilizado, me tornei o braço direito do líder da vila. O poder é um veneno doce e sedutor. Fácil se inebriar e viciar na tentação de exerce-lo. Contudo, eu já havia experimentado os efeitos nocivos dessa droga e dela eu mantive distância. Nunca usei de minha posição em causa própria. Dediquei todo meu esforço na construção de uma casa de cura. Lá, ofereci tratamento para todos da vila e qualquer pessoa que precisasse. A notícia correu rapidamente pela região e logo o vilarejo havia se tornado um polo efervescente de peregrinos, miseráveis e desafortunados, tomados pela peste, moléstia e enfermidades. Boatos são coisas vivas e como tal, se alimentam. Boatos devoram a verdade e proliferam exageros. De humilde médico, fui alçado ao patamar de curandeiro milagroso e então quase ao poste de um agente divino... Não tardou para que esse voo muito perto do Sol trouxesse consequências... Mas eu não percebi isso naquele momento. Minha visão já não era plena desde a infância e eu estava focado apenas nas vidas que eu podia salvar. Era minha virada no jogo contra a morte. Como fui tolo... Minha inimiga tinha muitas cartas a disposição para jogar contra mim. A presença constante de doentes trouxe problemas para Villamahar. Epidemias se espalharam e vidas foram ceifadas... Eu trabalhava noite e dia sem descanso, mas nunca era o bastante. Minha mente estava colapsando e meu corpo beirava a própria destruição... Foi quando Elara, a jovem filha de um moleiro veio até minha casa de cura pedindo por um chá para cólicas. Ela estava esperando sua primeira criança e estava ansiosa. Ela conversou comigo enquanto eu preparava um chá. Sua presença era um conforto para minha mente exausta. Ela ouvia meus lamentos sobre as perdas e me suportava. Pude chorar em seu colo quando não aguentei mais a pressão. Era a única com quem eu ousei expor a fraqueza. O motivo? Não sei ao certo. A inocência e gentileza dela me desarmava. Meu Bror era muito severo para que eu pudesse dividir os fardos... Ele já era responsável por manter a ordem em meio ao caos que eu trouxera para sua casa... Anthonia era uma mulher gentil, mas ela não tinha abertura para sutilezas. Seu pragmatismo era brutal: 'Se não pode trata-los, mande-os embora.' Por isso apenas Elara poderia me ouvir. Somente ela podia guardar minha dor. O marido de Elara era um rapaz trabalhador e educado, mas quando boatos de que sua esposa estaria frequentando em demasia a Casa de Cura do Changeling, ele foi tomado por impulsos de violência e ciúmes. Elara foi surrada e acabou perdendo o fruto de seu ventre. Enfurecido e convencido de que a culpa era minha, o jovem me desafiou para um duelo. Sem escolha, fui obrigado a aceitar o desafio de honra... Palavras não saciariam a sede de sangue e o ódio daquele incauto boçal. Angus presidiu o confronto. As armas escolhidas foram as adagas... O homem era maior e mais forte do que eu... Mas eu conhecia a fraqueza da carne. A fraqueza que eu tanto lutei contra... Os pontos vitais que eu protegia, agora eu precisava intencionalmente lesar. Cada corte que ele me fazia, eu aguentava. Me doía mais ferir aquele homem, do que ser ferido. Contudo, a voz de meu mentor ecoava em minha mente 'se você viver, poderá fazer o bem. A morte é a destruição da possibilidade.' Então, com lagrimas no meu olho, eu ataquei. Um único movimento com precisão cirúrgica e estava feito. Eu havia sido agente da minha única inimiga. Eu havia ceifado a vida de um homem. O povo aclamava e aplaudia minha habilidade, como se matar fosse um espetáculo. Eu vomitei. O sangue, que tantas vezes tive em mãos , agora era diferente. Era algo vil e venenoso. Elara então correu e me abraçou. Ela implorava por perdão e eu não podia suportar aquilo. Eu causei duas mortes naquele dia. E destruí a vida da minha preciosa amiga."
Ato 7 - O Aprendiz
"O dia seguinte trouxe um céu cinza e o sol encoberto por nuvens de chuva. O vagão de Nassus sacudia na estrada como um barco em uma tempestade. Ele dizia ao seu cavalo Horse: 'Vamos, vamos! O tempo é curto! Temos que chegar na próxima vila antes da chuva!'. Eu observava tudo com cautela, encostado em um canto do vagão. Nas paredes do carro, instrumentos semelhantes aos de Dullihan... Serras, facas, martelo... Mas impecavelmente limpos. O som de vidro vinha de uma bancada alquímica cheia de frascos fixos em suportes de bronze. Um cheiro forte de ervas emanava da mesa. Ao canto oposto de onde eu estava, uma cama com amarras de couro e uma estante de ingredientes. Livros de vários tamanhos, pergaminhos e ilustrações anatômicas estavam dispostos de forma organizada em várias prateleiras... Como aquilo não caia com o sacolejo do vagão? Esse mistério eu nunca desvendei. Chegamos e partimos daquela vila e de muitas outras... Entre um comentário sobre o tempo e as condições da estrada, direcionado a Horse, Nassus me contava histórias sobre quem ele era. Durante as sessões na cela, ele já havia me contado um pouco sobre sua trajetória. Nassus nasceu em Ambria. Foi educado para ser um Meistre em uma grande faculdade de Cirurgiões, mas ele era muito arrogante e prepotente. Acabou sendo expulso da ordem por desafiar seus mentores. Desgraçado, Nassus sucumbiu aos vícios. Álcool, mulheres, jogos... Ele perdeu rapidamente toda fortuna de sua família a acabou nas ruas, doente e miserável. Ele pedia pela morte todos os dias... Mas quando viu uma criança sufocando na rua ele imediatamente foi tomado por uma vontade súbita de agir. Sob protestos e ameaças dos transeuntes, Nassus debruçou-se sobre a criança e fez uma manobra para salva-la. O pai do menino queria espancar o mendigo imundo que se debruçava sobre seu filho inconsciente, mas quando a criança voltou a respirar, todos ficaram aliviados e espantados. O pai, confuso, deixou o 'agressor' fugir, para dar atenção ao menino que tossia e respirava avidamente. Nassus correu, sem tempo para justificativas, sem agradecimento, sem reconhecimento, mas orgulhoso de ter salvo aquela vida. Então um pensamento tomou conta de seu âmago: Se ele tivesse morrido, como tanto queria, aquele menino também estaria morto agora. Isso iluminou Nassus. Ele passou a dedicar sua vida ao bem dos outros. Nassus então passou a cuidar de si. Cortou seus vícios e passou a dedicar seu tempo a prestar cuidado as pessoas que não tinham acesso aos médicos. Juntando aos pouco as moedas que recebia de seus pacientes, dinheiro doado e nunca exigido, ele montou seu vagão. Um dia, ou melhor, em uma noite, ele conheceu uma bruxa chamada Adela... Ela era tudo que um homem poderia desejar... Lasciva, bela, irreverente... Quase selvagem... Mas extremamente habilidosa na cura. Nassus me poupou de detalhes sórdidos devido minha pouca idade, mas tenho certeza de que tiveram momentos ardentes, dado as expressões que ele fazia ao lembra-se dela... Mas Adela era algo que não podia ser ignorado. Ela foi uma mentora, guia e amante de Nassus por longos anos... Ela levou ele para fora das terras de Ambria em direção a Dovakar e ensinou sobre a Terra Antiga e seus segredos. Enquanto ele me contava essas histórias, ele me repassava os ensinamentos de Adela sobre botânica, fisiologia, anatomia, patologia... E assim eu aprendi. Nassus era um professor paciente, mas um pouco relapso. Ele divagava frequentemente em suas memórias, revivendo momentos sombrios e felizes em mesma proporção. Viajamos juntos por todos os cantos. Atendemos todo tipo de pessoa... Humanos, Goblins, Ogros, até um elfo... Uma vez... Alguém que parecia não estar doente... E usava um anel estranho... Quando ele foi embora, deixou esse anel como pagamento pelo serviço... Ele disse algo como 'De isso ao garoto. Isso é algo que deveria ter ficado com ele já há bastante tempo.' Eu só fui entender isso anos depois. Nossa viagem continuou por alguns anos, então Nassus começou a apresentar sinais de desgaste... Tosses frequentes e sangue... Então ele decidiu procurar a única pessoa que ele sabia que poderia ajuda-lo. Adela."
Ato 6- Recomeço
"Naquele momento eu imaginei que finalmente eu seria morto. Finalmente a dor iria acabar. Por um instante, senti alívio. Não tinha nada à perder. Então as palavras de Nassus ressoaram em minha mente como um trovão retumbante: 'Enquanto há vida, há esperança.' Então o alívio desapareceu e um medo novo surgiu. Pela primeira vez em muito tempo, temi pela minha vida. Afinal, eu tinha algo a perder: a esperança. Meu peito rufou como tambores da guerra. Meu corpo frágil se contraiu como um gato encurralado. Vendo minha reação, um brilho sutil passou no olhar rígido de meu pai... Ou devo dizer, do Capitão Von Heither. 'Então Hellicar... Parece que você realmente ainda quer viver. Impressionante. TALVEZ você realmente seja meu filho, de certa forma.' Ele se virou e comandou 'Me siga.' Ele saiu pela porta da cela. Coluna rígida como uma pilastra de um castelo. Mancando, sobre a perna deformada, claudiquei para fora da prisão. A luz das tochas no corredor estreito eram pequenos sois, ofuscantes e quentes. Eu desviei meu olho funcional para o chão e me forcei a andar. Inclemente, Von Heither caminhou imperioso abrindo as pesadas portas no corredor. Nenhuma palavra foi proferida. Eu não ousaria. E ele não desejava. O corredor terminou em uma porta estreita de madeira com reforços de ferro chumbado. Ele abriu a porta com uma chave imensa e pesada. A porta abriu com um rangido estridente. La fora, no céu uma lua cheia brilhava como um sol branco. Cada estrela era um diamante vívido em esplendor. Mas o chão... Ele era reservado para coisas rastejantes e quebradas. Coisas como eu. Os fundos da fortaleza se localizava nas margens da Dovakar Brilhante. As arvores eram retorcidas e enegrecidas. Vinhas semelhantes a forcas convidavam os condenados para balançarem. Olhos famintos de alguma fera espreitavam em meio a escuridão, então desapareceram. E o cheiro... O cheiro de mato úmido pelo orvalho, terra molhada e flores silvestres perfumavam aquele momento... Contudo, outro cheiro sequestrou meus sentidos naquele momento. Cheiro de morte. Von Heither apontou para uma cova larga, poucas dezenas de metros em frente. Dela emanava o miasma da morte. O perfume dos mortos deixados para apodrecer ao tempo. 'Então, Hellicar. Posso dar fim rapidamente a sua dor.' Von Heither tocou o cabo da espada que levava em sua cinta. Eu encarei seu olhar com meu olho funcional, desafiando sua ira. 'Eu quero... Eu MEREÇO viver.' O peso dessas palavras fez a postura de Von Heither vacilar por um instante, então se recompôs. 'Monstros, abominações, desgraçados e bárbaros são inimigos e não MERECEM viver. A morte é a cura para a doença que eles são.' Ele revelou um palmo do aço brilhante de sua cimitarra. 'Você está errado. A única inimiga é a morte. Enquanto houver vida, existirá esperança de que algo bom aconteça. Se eu não puder ter algo bom para mim, que eu seja algo bom para os outros... Eu não fui um bom filho?' Von Heither engasgou e calou as palavras duras as quais se preparava para disparar. Uma única lagrima escorria em seus olhos. 'Sim. Você era... Você foi... Vá. Desapareça e nunca mais volte para essas terras. Reze, reze à Deusa que eu não torne a ver-te neste mundo, ou vou te destruir. Corra para longe, demônio vil!' Então, com todas as forças que me restavam, eu corri. Nunca olhei para trás. Mas eu sei, no fundo, que aquele cheiro... Aquele sutil cheiro que senti era tristeza. Por horas sem fim me embrenhei no mato fechado. Os galhos espinhosos cobravam seu quinhão em sangue quando eu passava dentre eles, mas aquela dor era insignificante. O som de água corrente me guiou até um córrego. Lá eu renasci pela segunda vez. Eu não era mais um prisioneiro em uma cela, ou em uma gaiola de ouro. Eu era livre. Livre para ser o que eu quisesse ser. Enquanto houvesse vida, eu poderia renascer quantas vezes fosse preciso... Eu me adaptaria. E assim foi. Por semanas vaguei. Comi frutos e fungos. Logo aprendi quais que faziam mal. Então cheguei em uma vila de bárbaros. Consegui alguma ajuda, mas temi que minha presença pudesse trazer a atenção de Von Heither. Continuei meu caminho, de vila em vila, cada vez para mais longe das terras onde eu cresci. Passei fome, dormi na rua. Quase morri diversas vezes... Mas nunca desisti. Em uma noite fria, em um beco sujo detrás de uma taverna, eu estava prestes a congelar quando senti um perfume conhecido. Cheiro de ervas e flores silvestres... A consciência aos poucos foi me abandonando e então o escuro. Quando despertei, senti um calor confortável e o cheiro forte de ervas dominou meus sentidos. Eu ainda não havia aberto meu olho, mas podia sentir a luminosidade. Eu estava sobre algum tipo de veículo, pois sentia os solavancos cada vez que a roda atingia um buraco, ou pedra, da estrada. O som de tintilar de metal contra metal e contra madeira fazia uma sinfonia dissonante. Assim como o som omnipresente de vidro sendo sacolejado. 'Ah, acordaste enfim, meu jovem amigo... Fico feliz que o remédio esteja fazendo efeito tão rápido.' Então, pela primeira vez, percebi o gosto amargo de ervas que tomara conta da minha boca. Tossi e cuspi, mas aquele sabor pungente e ocre não abandonaria meus sentidos sem uma boa luta. 'Aqui, tome um pouco de água. Vai ajudar com o gosto ruim.' Abri o olho e vi Nassus estendendo um copo em minha direção. Bebi em um gole o conteúdo frio e insípido, lavando a garganta da amargura. Esse foi o momento do reencontro entre mim e meu mentor, meu verdadeiro pai."
Ato 5 - Perfume
"As torturas continuaram por vários ciclos solares... Os dias eram quase sempre iguais. Acordava com um banho de água gelada. Gritos exigindo a 'verdade'. Dor. Escuro. Frio. Contudo, as vezes algo mudava. Um cheiro novo e poderoso preenchia os corredores do calabouço. PERFUME. Nesses dias, minha mãe vinha me ver. E esses eram os piores dias. Era me alimentava com restos de comida. Me contava fofocas sobre pessoas que eu conheci, mas de que isso me importava? Então ela ficava subitamente violenta e me atacava furiosamente. Foi em uma dessas visitas em que perdi meu olho. Então ela retornava ao tom casual da conversa monologa dela. Com o tempo, o cheiro de perfume se tornou um signo de dor. O cheiro me trazia agonia e desespero... mas então, em um dia algo mudou. Eu senti um cheiro diferente... Um perfume distinto. Era um cheiro de ervas e flores silvestres, diferente do pesado e doce aroma de rosas que minha mãe usava. Meu corpo se contorceu ao sentir esse novo cheiro, entretanto, ele se tornaria meu aroma favorito muito em breve. O cheiro pertencia ao apotecário itinerante Nassus, o qual foi convocado pelo meu pai para manter-me vivo. Ele tratou meus ferimentos com habilidade, destreza e gentileza. Pela primeira vez, alguém me tocou com afeto. Inicialmente eu resisti ao toque, me debati e lutei. Até lembro de tê-lo atingido em seu rosto com um chute desesperado... Mas o velho apenas sorriu, limpou o sangue em seu lábio machucado e me acalmou com suavidade. Ele me explicou que não iria me fazer nenhum mal. Que estava lá para cuidar de meus machucados... Eu disse que queria morrer logo... Que aquele inferno não teria fim de outra forma... Mas o homem me interrompeu dizendo 'Escute bem, garoto. Enquanto houver vida, há esperança de que algo bom pode acontecer. Se você não puder ter algo de bom para si, seja então algo bom para os outros. A morte é nossa verdadeira inimiga. Ela destrói as possibilidades. No resto, por pior que uma vida seja, por mais cheia de dores e sofrimento, você carrega ainda o potencial infinito para mudança.' Aquilo não fazia muito sentido para mim naquela época. Talvez, mesmo hoje, eu ainda não compreenda a completa extensão e o poder daquela filosofia. Mas isso me encheu de esperança. Me deu uma motivação real para não desistir. Nassus cuidou de mim por vários meses. Quando meu corpo estava forte suficiente, ele era dispensado e Dullihan retornava. Ou pior... Minha mãe e seu perfume. E assim o tempo passou. Eu estava próximo de completar o terceiro inevrno em minha cela, quando um novo elemento se fez presente no tão familiar calabouço. Um perfume de vinho caro, jasmim e bigarade (Citrus aurantium). Era o conhecido cheiro do meu pai. Ele entrou na cela sem muita cerimonia. Ordenou que cortassem as amarras que me prendiam na cadeira. Então ele ordenou que os guardas fossem embora. 'Então. Você deve me responder a verdade de uma vez por todas. Onde está o VERDADEIRO Hellicar?' Eu tremi frente a imponente figura de autoridade em minha frente. Ele era um homem alto, forte e de constituição larga. Alguns homens sussurravam que ele tinha sangue de ogro para ser daquele tamanho, mas se calavam rapidamente quando ele passava. 'Eu... Sou... Hellicar...' Consegui dizer, tremendo, as palavras mais difíceis da minha vida. 'Eu sou Hellicar. Você é meu pai. E você está me matando.' As palavras de repente tomaram folego e saíram como uma disparada de abelhas furiosas. A acusação era ferina, direta e implacável. O inabalável comandante sentiu cada silaba atingi-lo como um rochedo disparado de uma catapulta contra sua muralha de tijolos. 'Pois bem. Que assim seja. Se essa é a verdade, então Hellicar nunca existiu.'
Ato 4- A Tortura
"Antes que eu pudesse sequer entender a razão pela qual o rosto de todos se convertera em uma máscara de medo, ódio, ou nojo, um golpe seco na minha nuca me nocauteou. Acordei com a cabeça latejando, os braços firmemente atados em uma cadeira dura, em uma sala escura com cheiro pesado de umidade e secreções humanas... Um cheiro de pânico permeava o lugar. Comecei a gritar pedidos de desculpas, jurando q nunca mais iria sair de casa, que não iria mais me envolver com as outras crianças... mas meus gritos só foram respondidos pelos ecos de minha própria voz, ressoando de forma ameaçadora pelos corredores do calabouço. Algumas horas se passaram. Eu sentia a voz falhando, após tanto gritar. A garganta estava seca e dolorida. Então escutei passos pesados no corredor e um tintilar de chaves. A robusta porta da cela se abriu com um rangido de protesto das dobradiças enferrujadas. Um homem vestindo roupas negras e um capuz cônico entrou na cela. Ele carregava em mãos uma tenaz e em seu cinturão uma miríade impressionante de facas e outros instrumentos com propósitos macabros. Eu senti um frio que veio do fundo da alma... Ele era Dullihan, o carrasco que meu pai trouxera de Ambria junto com seu pelotão... Ele dizia que 'para conquistar um lugar era necessário dobrar seus habitantes de maneira apropriada', mas Dullihan fazia mais do que 'dobrar'... Ele quebrava. Durante incontáveis ciclos solares, eu sofri incontáveis tipos de angústias... Privação de sono, falta de comida e água, torturas físicas das mais sutis e precisas, até as mais grotescas e brutais... Meu corpo foi destruído e consertado tantas vezes que eu perdi as contas... Mas sempre que me 'consertavam', algo ficava pra trás. Primeiro, meu olho esquerdo. Após um golpe tão forte que levei, ele estourou e precisou ser removido. Então foi minha perna direita. Ela ficou tão quebrada que nunca calcificou corretamente. Costelas, quebrei todas. Braços? Ambos foram fatiados deixando cicatrizes monstruosas. Tive hemorragia interna e quase morri algumas vezes... Mas, meu pai não permitiria que eu me fosse sem revelar onde estava o VERDADEIRO Hellicar... Por isso ele convocou um Cirurgião-Apotecário para tratar meu corpo debilitado... Esse homem era Nassus. E ele se tornaria meu melhor amigo e salvador. Ele me ensinará tudo que eu sei hoje... mas essa é uma história que fica pra próxima."
Ato 3 - O Sétimo Verão
"No celebrar do meu sétimo verão, minha mãe, como era de se esperar, convocou todos os habitantes da vila e arredores para celebrar. Eu estava apavorado. Era uma oportunidade única de finalmente conhecer as crianças que tanto observei em silêncio... Ylva e seu cachorro malhado... Yan, o garoto de 10 verões que era do tamanho de um adulto... Thork, o filho do açougueiro que praticava o oficio desde seu quarto verão! Eu conhecia todos! Mas... ELES não me conheciam. Sob fortes protestos de minha mãe e sob a vigília de meu pai, fui autorizado a me juntar com aquela turba alegre que comia e cantava em alegre celebração... Celebravam meu aniversário? Difícil saber. Mas quando a família mais rica da região te convida para comer de graça, ninguém ousa recusar... Timidamente, me aproximei de um grupo de crianças... Elas pararam sua falação sobre batatas e repolhos e me olharam com um ar de curiosidade, medo e desprezo... Como quando se vê um inseto exótico em uma folha, mas o animal voa em sua direção. Eu tentei me apresentar, mas as palavras travaram em minha garganta, como se fosse feitas de terra. Então, Yolan, a filha mais nova de um campones da região, me olhou com seus lindos olhos, azuis como profundas piscinas onde os animais se juntam para bebericar. 'Oi! Hoje é a celebração de seu sétimo ano, né? Por isso estamos aqui, né?' 'Sssi...sis...sim...' Consegui cuspir as palavras, que queimavam minha boca como se fossem urtiga brava. 'Eu... Eu queria... Eu queria... Saber se vocês querem brincar comigo...' As crianças se entreolharam, desconfiadas e intrigadas... 'O pequeno príncipe desceu do trono para rastejar no chiqueiro com seus servos?' Rompeu um garoto magro de cabelos ruivos eriçados e rosto marcado pela peste, Kuno, era seu nome... Então, em resposta quase ensaiada, sua irmã, Kunoesse, disparou: 'Isso mesmo Kuno! O principezinho quer brincar na lama Kuno... Vamos FAZER ele brincar na lama, Kuno!' Então, os dois saltaram sobre minhas pernas e me derrubaram. Kuno me puxou para uma poça de barro fresca, enquanto Kunoesse segurava meus braços... As outras crianças riam e aplaudiam em fervoroso êxtase... Anos de humilhação, vingados naquele instante pelos gêmeos justiceiros... Mas um rosto na multidão observava em choque... E não era Yolan, a qual se juntara ao coro de risos. Era minha mãe. Ela estava rubra, quase roxa de ódio... Os gêmeos demoraram para perceber o tamanho do problema que haviam encontrado... Foram poucos instantes ate que uma legião de soldados cercassem os dois e os deixa-se a beira da morte... As demais crianças fugiram, ou ao menos tentaram, enquanto eram atingidas por golpes impiedosos dos bastões da guarda leal ao meu pai. E nesse momento que a mudança ocorreu. Ao lavar a lama, meus olhos haviam se tornado maiores... Minhas orelhas ficaram pontudas e meu rosto perfeito estava deformado, como uma caricatura estranha de um humano. E assim eu fui rebaixado. De jóia e bibelô, para um suíno rastejando na lama... Um verme desprezível que minha mãe jamais seria capaz de amar... Uma abominação, semelhante aquelas aos quais meu pai jurou livrar o mundo... Eu me tornei um pária... Uma fraude... E isso trouxe para eles a questão: 'Onde está o VERDADEIRO Hellicar!?' E essa questão foi repetida muitas vezes durante as sessões constantes de tortura. Espancamento, privação de sono e comida, cortes e chicotadas... Meu 'pai' não pouparia esforços para que eu revelasse onde estava seu VERDADEIRO filho... Como se eu soubesse o que isso significava..."
Ato 2 - A Gaiola D'ouro
"Minha segunda memória mais antiga é de aproximadamente cinco anos depois da primeira. 'Porque?', alguns perguntariam, mas como é que eu vou saber? As memórias são assim... Eu acho... Enfim... Minha segunda memória é de meus 'pais'. Meu pai era um homem respeitado e temido. Um oficial da guarda Ambriana que havia sido destinado para um posto avançado em uma vila próxima ao território bárbaro. A expedição era um experimento para uma migração em massa que se aproximava. Minha 'mãe' era uma perfeita donzela. A nobreza que lhe faltava no sangue, comprara com o ouro de sua família tradicional de comerciantes. Ela era exuberante em joias, vestidos e perfumes. Tudo que pudesse torna-la o centro das atenções era visto como um artifício válido a ser usado... E sim, sua criança era o maior trunfo para ela. E assim foi por alguns anos. Meu pai ocupado, severo e distante. Minha mãe excessivamente perto, mas emocionalmente desligada. Eu era um bibelô para exibição. Um herdeiro para uma carreira militar brilhante. Um prodígio para ser exaltado... Mas... Eu era solitário. Nunca permitiriam que eu me envolvesse em brincadeiras com as crianças 'sujas' da vila... 'Bárbaros... É isso que elas são!' repetia meu pai. 'Nunca ande com essa plebe imunda Hellicar! Vão lhe passar doenças e vermes nojentos!' E eu obedeci... Eu via da janela, em minha gaiola de ouro, as crianças da vila trabalhando, brincando e se divertindo... Enquanto eu existia. E assim foi até meu sétimo verão."
Ato 1 - A Troca
"Minha primeira lembrança é estar enrolado em uma coberta quente. Braços gentis, mas rígidos me carregavam. Um choro ecoava na noite, mas não era minha voz. Outro bebê... Um bebê diferente... Chorava em seu berço imponente. Mal pude ver aquele embrulho barulhento, quando ele foi rapidamente apanhado no braço livre, enquanto eu era posto gentilmente em seu lugar. Não lembro das palavras exatas, mas ELE me falou algo gentil e me aninhou no berço feito com esmero por algum artesão talentoso. O bebê calou-se ao toque do dedo DELE, que o aninhou em seu colo. Antes de partir de volta para a noite, ele removeu minhas cobertas e cobriu-me com as cobertas finas de peles alojadas sobre o berço. Por último, ele disse algo que eu nunca soube o significado, mas posso imaginar que fosse "boa sorte, pequenino". Seu ultimo afago foi um suave abraço. Então, secretamente, ele me deixou um anel com sinete escondido dentro do travesseiro de plumas. Anos depois, descobri que ele fazia isso com todos os bebês aos quais trocara. Deixava um pequeno objeto de baixo valor com a criança e uma copia idêntica ele mantinha para si. Cada objeto era único no mundo, fora seu par. Só voltaria a ver aquela pessoa muitos anos depois... Mas essa é uma história para outro momento."
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
Reciclado
O tempo é como um velho escultor.
Cheio de caprichos e vontades.
Trabalhando sem pressa, ele vai moldando...
Então, sem aviso, ele destrói tudo e recomeça.
Agora, estamos novamente na mesa.
Como barro fresco, ou pedra bruta.
Matéria prima, reciclada dos cacos.
Agora, algo está tomando forma.
Algo que já foi outrem.
Algo que já foi ontem.
Algo que será amanhã.
O que serei?
Charada
Eu sou a voz da alma,
Sem boca para gritar.
Eu sou o reflexo da vida,
Sem a morte me alcançar.
Eu sou a luz e sou a sombra,
Aquilo que não podem calar.
Sou a vontade manifesta,
O sentimento revelado
Sou uma verdade indigesta,
Ou só um sonho acordado.
Quem sou?
R: A ARTE
quinta-feira, 13 de junho de 2024
Pai
Sinto falta do seu jeito tosco
Seu gosto musical duvidoso
Do jeito despreocupado
Com que você cantava errado.
Sua vida foi uma longa viagem
Eu fui breve passageiro nela
Nunca consegui decifrar seus segredos
Tão pouco você chegou a me conhecer
Nossa relação foi como um lago congelado
Nós só arranhamos a superfície do gelo,
Enquanto o profundo do nossos sentimentos permaneceu intocado
Mas eu gostava de te ver
Eu esperava sempre ansioso pelo seu retorno incerto
Descomprometido, despretensioso
Vinha como um pássaro migratório de passagem
Me levava em suas asas, voando baixo na estrada
Milhas sem fim, cantando seu som desafinado.
No fim, sua jornada continuou para além do horizonte
Onde eu não posso mais lhe acompanhar.
Nunca mais retornará ao ninho, pois jaz sob o chão
Não mais cruzará pelas estradas, por onde tanto passaste
Não mais tornarei a ouvir seu canto torto
E esse silêncio me dói
Sua alegria singela, contagiante
Agora é um luto amargo para quem te amava
E quem não te amou?
Por onde passava, deixava sempre sua marca
Sua curiosidade juvenil e empolgação trivial
Se convertia em admiração nos olhares alheios
Inventivo, inteligente, mas sempre humilde
Orgulhoso, apresentava seus inventos sem soberba
Arrancando suspiros de surpresa e admiração
Hoje, nada mais pode criar.
Seu trabalho ficou inacabado, como sempre.
Sempre esperançoso de que um dia, um dia ele seria retomado
Mas esse dia nunca chegou.
E você me deixou.
Esperando como uma criança aguardando o retorno do pai.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020
Joia azul
A joia no centro da coroa, ornada e reluzente.
Seu brilho, sobrepujante, me intimidava.
Eu, pedra bruta, afiada e áspera. um cascalho na bota.
Mas as areias do tempo me poliram.
Fui moldado pela pressão, pelos ventos da tormenta.
Parei de desejar ser aquilo que não era. Não sou.
Hoje, vejo o empalidecer de seu brilho.
As fissuras da dor ameaçam lhe romper, fragmentar.
Sei que o verdadeiro brilho não está na joia, mas na luz que ela irradia.
E essa luz é o seu Eu verdadeiro.
Essa mesma luz, que me ofuscava e fazia sombra, também iluminou minhas trevas.
Nesse brilho, eu me busquei, mas não me achei.
Mas encontrei o caminho que me levou para casa.
Mesmo que eu não sejamos parte da mesma rocha matriz, você faz parte do que eu sou hoje.
Meu rival, meu inimigo, meu conselheiro, meu mentor, um pai.
Seu brilho vai continuar iluminando meu caminho, como uma estrela solitária apontando meu norte.
Obrigado por tudo.
Luto
sexta-feira, 28 de junho de 2019
Lagarto
Renovo a carne viva, raspando nas pedras ásperas da vida.
Evito cobras e cobranças, constritoras e peçonhentas.
Procuro um pouco de sol e rastejo para a sombra da minha toca.
Pouco importa. Tenho sangue frio para enfrentar a dor.
Mas, de cabeça baixa, me encolho e fujo, deixando um pedaço de mim para trás.
quinta-feira, 30 de agosto de 2018
Repressão
Povo sem sorte,
Na vida e na morte,
O Estado censura.
Na mão do carrasco,
O desgosto, o asco.
Ao rico, fartura,
Ao pobre, tortura.
Tragédia esparsa,
Jocosa é a farsa,
Ao tolo, fiasco.
Grito calado,
Destino selado
Beira do penhasco.
domingo, 8 de abril de 2018
Rotina de Agonia
Uma agonia escondida sob a carne viva.
Cada dia, uma sentença a ser cumprida.
Cada hora, açoita as costas cansadas.
Cada minuto, um grão de areia de uma tonelada.
Sala de Espelhos
Morte em Vida
terça-feira, 10 de outubro de 2017
Ícaro ou Dédalo
As vespas que engulo, destilam seu veneno em meu estômago.
Apago a luz de minha vela, para manter acesa a fogueira daqueles que me incendeiam.
Atrás de um pouco de alívio, afundo cada vez mais na escuridão plácida que me consome.
Corro entre os espinhos que me cercam, minhas pétalas se despedaçam, enquanto continuo sorrindo.
Entre meu ranger de dentes, o alvo sorriso da angústia se destaca.
Devo me conformar com as cinzas, que minhas pétalas se tornaram, parar de ousar voar perto demais do Sol?
Seria eu Ícaro em busca fadada ao desastre, ou Dédalo em um lúgubre labirinto, construido de esperanças vãs, aguardando meu monstro/carrasco?
terça-feira, 4 de julho de 2017
Ópio
Anestesia minha dor
Acalenta em teu seio
Meu desejo
Acalma minha alma
Com teu beijo
No seu límpido néctar de flor
O mais puro êxtase de prazer
No âmago do teu corpo
Minha alma reflete em teu espelho
Cristalino orvalho da manhã
Meu corpo é um com o seu
Mas o sonho se encerra
No raiar frio do dia
Minha mente grita em agonia
Procura e tenta te alcançar
Sinto a amarga abstinência
De, ao longe, te amar.
terça-feira, 6 de junho de 2017
Soneto da Dor
Aqueles que me machucam ou me desgastam
Estão em poemas em que eu me desgraço
As vezes, apenas palavras já não me bastam.
Poemas felizes já não me agradam,
Só poemas sobre sofrer me vem a mente.
E que apenas estes minha alma invadam,
Desejando paz, derramo sangue quente.
Estupida-mente me empurrando para o abismo profundo,
Descarrego o sentimento, sem pensar no futuro.
Estou preso no infinito do agora e me vejo no escuro.
Em meus sentimentos, baratos e vis, eu afundo.
O medo me perseguiu, no calar do escrito.
Estou agora calado, trancado, restrito.
Por Que(m) Escrevo
O desconhecido futuro é o mais negro dos augúrios.
O incerto se faz por claro o mais sombrio.
Me engasgo em palavras tortas, duras de engolir
Descarrego uma torrente dolorosa de sentimento
Escrevo como se dependesse disso para viver,
E não dependo?
Sufocando no medo que me paralisa,
Enterrado em pesadelo acordado,
As correntes que me pesam
São grilhões de sangue vertente.
Se eu conseguisse escapar do mal que me cerca,
Se eu encontrasse luz neste abismo sem fim,
Se o monstro, medo, que me devora fosse morto
Se houvesse paz em mim...
Escrever-te não iria.
As Duas Faces da Violência
Ela custa caro...
Custa o sofrimento da mente.
O tormento da alma.
A dor da carne.
A cada mão que bate,
A cada coração que para de bater,
A cada palavra dura.
Um rosto apanha,
Uma mão empunha a arma,
Uma boca vocifera.
Agressor e agredido
Cara e coroa da mesma moeda
Tão visceralmente unidos em dor.
Conflito
Tento ver o futuro pelo buraco da fechadura, vislumbro as sombras distorcidas dos meus medos.
Meu único crime foi meu passado, ou teria sido o distino?
Julgamento
Deus é juiz,
O Diabo promotor,
A Fortuna advogada,
E o Destino juri,
Eu sou o reu.
Decisão unânime.
Culpado.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
O Roubo da Paz
A paz roubada de minha mente
O tormento que me foi ofertado
Retumbante em meu peito
Consome minha energia lentamente.
Se desejar minha segurança é defeito;
Imaginando que o mundo fosse perfeito,
Me deparei com a brutal realidade
Que me tirou toda tranquilidade;
Então que o medo seja aceito.
Filha Ingrata
Filha ingrata de nossa alma
Mama nossas lágrimas ao peito
Dorme aninhada em nosso coração.
Quando desperta,
Brada por nossa atenção
Nos toma como seu refém.
Acalantamos até que ela durma
Nos dedicando a conforta-la
Até que ela volte a gritar no peito.
Faxada Destruída
Ludibriado com as mentiras nunca pronunciadas.
A realidade é uma faxada que oculta algo negro.
Erro crente na segurança justa da civilidade.
A barbárie me cerca e eu não vejo, não sinto.
A violência é uma adaga oculta na mão de um assassino.
Minha mente se estilhaça em fragmentos finos de medo,
A faxada é destruída em apenas um instante lúcido.
A adaga entra fundo na'lma e me desola.
Abro meus olhos aflitos e enxergo a brutalidade.
A sujeira vil que a escória do mundo alimenta.
Cambaleante, ferido, eu vago por ruas sinuosas e estreitas.
Agora eu vejo e tudo que desejo é voltar a ser cego.
Paranoia
sexta-feira, 4 de novembro de 2016
O Martírio de Atlas
Um mundo alheio em suas costas
O sofrimento calado de um dever hercúleo.
Largar tudo, desistir e virar as costas para todos?
Aguentar sozinho, com sorriso amargo, o peso eterno?
Respostas fáceis. Palavras frias. Problema insolúvel.
O que fazer sobre tamanho fardo?
Meu sofrimento é observar, preso a correntes,
O sofrimento de uma alma irmã em sua punição sem crime
Enquanto sou devorado vivo.
sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Jogo de Azar
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Tal Como as Cicatrizes
Sacrifiquei versos, tempo, sangue e lágrimas
Investi mais do que podia esperar receber.
Cada poema que foi recitado com juras de eterno amor
Cada letra, sílaba, sentimento posto a limpo
Um desabafo sincero, um pedido de socorro, uma alma aflita.
A cada momento que passei, refleti e mudei
Mas as palavras são eternas enquanto tal
Mesmo que o sentimento tenha passado,
A poesia ficou. Tal como as cicatrizes.
O Silêncio
O veneno que destrói a alma
A resposta do sábio
A afronta do rude
O esconderijo da dor
A morada da calma
Terno nos beijos
Profundo nas lágrimas.
Entre os Dedos
Únicos em cada gota cristalina
Em um oceano de lembranças.
Tentamos preservar o presente na memória
Mas como o gelo fino que se desmancha
Tudo vira passado evanescente.
Como as águas do rio mudam
Mudamos nós em seu leito
Do que um dia já fomos.
Nadamos futilmente contra a correnteza
Tentando reverter o curso do tempo
E acabamos afogados em nostalgia.
Admirável Gado Novo
Ruminando ideais e idéias prontas
Ração matinal
Vagando em campos cercados
Com bela vista para o mar
De costas para o matadouro
A manada é guiada junta
Pelos ferozes cães leais a lei
Que com ladrados e mordidas a conduz
Os pastores, do alto espelhado, assistem
O espetáculo que é a manada em curso
Em rumo eterno para lugar algum.
Corda-Bamba
Sobre um profundo e obscuro abismo sem fundo
Inevitavelmente iremos, um dia, enfim cair lá.
Deus, para quem acredita, é a rede escondida no escuro.
sexta-feira, 19 de agosto de 2016
Rotina
Detrítos, atrítos e pratos
Prisioneiro em fuga, de si
Desejo, compromisso e sono.
A rua se abre plena
Pura, desnuda e atrativa
Dos desejos e anseios,
Amante casta, devota e ingrata
Dos vícios sem virtude se faz mãe
Das desilusões, das desgraças.
A casa, prisão, paraíso
Do lar, do afago e amparo
Ao sufocante descontentamento.
Do dia a dia se faz tormento
De sua falta, o lamento.
Lar e rua, como sol e lua
Juntos em um.
Lembrança Afogada
É a voz do tempo que leva a vida dos incautos adormecidos
Que se arrasta rápida pelas dobras da ampulheta da agonia
Areia fina, de oníricos castelos desmanchados e esquecidos.
A nostalgia nos convida a reviver o que perdemos
Mas que profundamente enterramos no peito rígido
Por mais dolorosa a lembrança a qual esquecemos
O esquecer é afundar em turbulento mar frígido.
A corrente leva rápido para o turvo e profundo fim
Como a areia que o vento leva, a vida passa veloz
Sem ar, sem voz, adormecida jaz, sob véu de cetim
Mas a lembrança segue viva, nas asas de um albatroz.
segunda-feira, 15 de agosto de 2016
Deserto de Silício
A máquina sem alma não alivia nossa dor
Afundamos nas teias ardis
E quanto mais fundo entramos na rede
Mais nos afastamos de nós.
Escudo de covardes, tolos e desgarrados
Descarados e mascarados
Habitantes da terra de ninguém
Onde o jester é rei.
Almas secas, solitárias e esquecidas
Seres sem face que nos cercam
Deserto virtual
Do silício, o silêncio omnipresente.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
O Pesadelo Emerge
O espelho que reflete o medo
Sentimento frio que acalenta minha noite
Olhos que me espreitam
Bocas que me devoram
Garras negras que rasgam a luz
Sou tragado para dentro do pesadelo
Gritando para acordar,
Enquanto me debato futilmente
Os gritos acordam as bestas
Sou devorado em agonia viva
E a morte se recusa a me salvar
Desperto do sonho, o pesadelo emerge
A realidade gélida que me angustia
Que voltem as bestas, que me salvem da dor
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Evanescência de um Sonho
Infinita possibilidade do não ser
No limite extremo do saber
Contendo tudo e nada ter
Na aurora do amanhecer
Tudo pode acontecer
Contudo acabo por esquecer
E seu sentido termina por se perder.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
Calabouço Interior
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
Vela
Sobre pendão delicado
Desdobrando-se com deleite,
Seu movimento complicado
Como outrora já ardera,
Queima agora sem descanso
Como pira da lareira
O olhar, que paira manso.
Vendo a morte chegando,
Como o sol que se põe
Com o dia acabando,
Pouco faz e não se opõe.
Deixa a chama se extinguir
Bailarina pousa e para
Chama deixando de existir
Sua dança acabara.
Título em Branco
Um branco apagado de sentido
Tão completo em sua inexistência.
Há algo mais pleno de sentido
Que a completude do não ser?
Ser o nada e ainda assim sentir tanto!
Como o vazio profundo da alma,
Como a profusão plena do coração ferido.
Ainda assim buscando sentido,
Para o nada que escrevo,
Acabo encontrando tanto de mim.
Epitáfio do Presente
Onde está quem era?
Onde estará quem sou?
Onde estava quem serei?
Sou um agora constante
O passado, afogado no tempo
O futuro, evanesce em pó
Estou tão preso na rotina,
Que se tornou fugir dela.
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
A Fera
e angustias maliciosas.
Investe, a besta, contra seu inimigo ardil
Cavaleiro/menino, pretensioso e arrogante,
tal como a própria fera.
Belicosa e jocosa, a fera se traveste de inocente
Sob a pele de cordeiro, escamas de dragão.
Contra o jovem, seguro de si, a besta avança
-Como ousa afrontar-me com sua presença
em meus domínios?
- ruge a besta.
- Como vós, sou orgulhoso, bravio e ouso desafia-lo!
- brada o cavaleiro.
A fera, covardemente, devora o pequeno oponente
e em suas vísceras o digere lentamente.
Anos se desenrolam, nos intestinos incandescentes,
o jovem cresce enclausurado.
Das tripas da fera, usurpador cavaleiro ressurge, ousando, a fera,
novamente desafiar.
A luta perdura eterna
na memória distorcida e doente da besta,
que segue a pelear contra a ilusão de seu adversário.
O cavaleiro, hoje livre, cavalga feliz ao por do sol,
deixando a fera sozinha a devorar à própria cauda.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Homens-Brinquedo
Mas eu sou de uma edição limitada, não estou a venda, só para mostruário.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Perdendo Tempo
Como grãos rubros de areia
Escarlate sangue, vertente da veia
Deixa-me meio morto, moribundo
A Cada minuto perdido
Horas transformam-se em anos
Segredo de mim escondido,
Como realizar os meus planos?
Festeja seu banquete, o corvo
Nesta ampulheta, já sem areia
Última gota do rubro sorvo
Nesta bíblica, última ceia
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Meta Poesia
Filhas órfãs de mãe,
Outras almas,
Me reencontrei
O passado, hoje me é plácido
Ontem fora guerra e sangue
Acabado, mas não esquecido
Venci, venço, vencerei
O tempo corre para frente
E eu busco sua sabedoria
Me encontrar com esse velho eu
Essa criança que eu era
Que eu sou
Me torna mais adulto
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Apenas Sonhos
Acordamos em carne estranha, material pesado
Não podemos flutuar como antes
Nem dormir tranquilos, porque o dia é curto
Somos pesadelos acordados, em vidas secas
Áridos de fantasia e imaginação
Presos no chão frio de cimento e terra
Morremos quando esquecemos de nossos sonhos
Mas quando deixamos de viver nessa carne
Voltamos a ser apenas sonho, evanescente no ar.
Festa do Tempo
Em Face ao Espelho
Juntando os cacos do que passei
Do que vivi e aprendi
Do que jamais aprenderei
Eu vejo a idade aumentando
O tempo vai me devorando
Dia a dia leva embora
As lembranças de outrora
Se estou errado ou estou certo
Não me importa isso agora
Não estou longe nem estou perto
Tanta vida posta fora
Neste espelho, em frente a mim
Percebo que sempre fui assim
Natureza Humana
Desde as cavernas até os arranha-céus
Os motivos se mascaram em novas faces
Mas o homem permanece igual
Como na guerra, na vida
Assim perdura nossa sina
Nosso ódio nos alimenta
A mão que cuida e arrebenta
Buscando a satisfação em cada gesto
Em cada olho um brilho frio
E segue assim o mesmo rio
E desce no estomago, indigesto
O homem é vil e desprezível
Assim como sempre fora
E quer disfarçar sua vilania
Culpando a outros os crimes que cometia
Seremos enfim verdadeiros,
Quando o último de nós jazer morto
Assassinado por seu ego
Interpretando a Vida
Que cresceu
Melhorou
Eu digo que mudei
Que cresci
Melhorei
O que mudamos foram os papeis
Do que nunca passou de uma encenação
Uma encenação sobre ser o que somos
O que queremos ser
Nem mudados
Crescidos ou
Melhores
Apenas em novos papeis
Dessa peça cômica
Que chamamos vida
Crescido
Um misto de possibilidades irrealizadas
Um repleto de ontens e de hojes me compõem
O amanha é uma incógnita
Não sou melhor ou pior do que era
Estou diferente, mas igual ao que sempre fui
Sou aquilo que penso ser, mas não sou o que imagino
Aquilo que não sou e queria ser, já se foi
Já acabou o tempo de ser poeta, cavaleiro, guardião, bobo ou sábio
Restou-me a realidade que me acolhe
Não questiono, ou questiono os viés que a vida trouxe
Agora, não importam mais
Estou completo e vazio
Preenchido de agora, sacio o depois
E o antes já é história
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
A Morte da Poesia
A dor que conduzia
A mão que escrevia
A poesia esgotou-se como fonte seca
A alma, tranquila, não precisa mais dela
Tudo resume-se ao dia a dia monótono
Minhas asas negras foram amputadas
Afogado pela dor, eu respirava versos
Suspirava rimas, desabafava estrofes
Mergulhava em mim mesmo
A dor se foi e só restou o branco do papel
Seguro, mas vazio e desolado
A poesia foi morta
Para que eu permancesse vivo
Divina Comédia
sexta-feira, 16 de março de 2012
O Medo
Alimentado de incertezas
Suspira aliviado
Contra a fútil resistência vã
Imperador de suas decisões
Responsável pelo desamparo
Exaurindo suas forças pouco a pouco
Mergulhando-a nas sombras
Você não tem porque teme-lo
Não tem razão para enfrenta-lo,
Se ele te proteje de todos
Enquanto te aprisiona em si mesma
Mas agora outro sentimento aflorou
Tão profundo quanto poderoso
E pouco a pouco suprime o parasita,
que recua para o lado escuro do peito
Esse sentimento te renova
Te alimenta e te mostra a luz
O que tanto temia se mostra lindo
Sua prisão, aberta, retrocede
Está livre para ver o mundo
O medo não mais governa
O que te motiva é quente
O que te motiva é meu amor.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Amor
Corre como sangue nas minhas veias
Pulsa no meu peito,
A razão do meu respirar
É seu amor e nada mais puro será
Minha alma transborda nas lagrimas
Que dos seus olhos escorrem
Como o sangue que por ti derramaria
Como o fogo que por ti arde
Somos dois meios de um todo
Que separados, nada somos
Fragmentos de pensamentos
Escoam por entre nossas almas
Fios de puro sentimento
Materializado em emoção
Todo nosso amor cabe em uma lágrima
Uma palavra, um gesto bobo ou um abraço
Por ser tão simples quanto complexo
Por ser tão inexplicavel e completo
Amor.
Minha Boneca
Como uma boneca numa caixa vazia
Um mundo frio e sem vida
E era assim mesmo que ela queria
Uma doçura infinita, afogada pelas duvidas amargas
Desconfiava de tudo, e não olhava pra nada
Só para o próprio vazio do seu coração empedrado
De seu mundo cinza, via a chuva caindo
O sol brilhando e as nuvens passando
Nada era mais belo que as folhas verdes
Ou o céu azul, mas não no mundo cinza
Ela ouvia as musicas que sua alma pedia
Como portais para o mundo em que não vivia
Apesar de ser o que seu coração mais queria
Encontrei essa caixa isolada na sombra
Aonde eu mesmo me escondia
Mas agora era dia
E do sonho a boneca acordara.
Fantasma do Amor Passado
Sua sombra pestilenta me traz memórias
E dessas, nenhuma me convém lembrar
Mas sim apagar da lembrança o que um dia aconteceu
O que traz sua imagem, além de desprezo e rancor
E por que ainda sinto o asco e degradante desejo de perdoar
Talvez para aliviar minha vergonha, dos erros que cometi
Talvez, talvez você não fosse um erro afinal?
É isso que quer que eu sinta?
Esse é o chamarís de sua armadilha?
Bom... Não desta vez
Por mais que doa a verdadeira face,
Que se esconde sob o olhar inocente
Um demonio é um demonio
E sebe bem dissimular suas presas
Minha carne já sofreu o teu pecado
Minha alma já corrompeu-se com seu tormento
Meu coração já sangrou com sua lâmina
E agora não acredita mais em assombração.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Autopiedade
Como mais um ridiculo autoretrato caricaturado
em uma parede morta
Como é que posso descansar agora?
Se estou transbordando de palavras pessimistas
E de pensamentos negativos?
Até um bom pesadelo seria mais reconfortante,
Que uma noite insone, olhando meu reflexo
Com muita pena de mim mesmo para apagar a luz e dormir.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Contraste
Caminho Só
De Fora da Caixa
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Cruelmente Humano
Palavras Víeis
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Romantismo
Somente o tempo pode provar
Que é amor que desejo lhe dar
E não uma paixão que logo irá apagar
terça-feira, 1 de novembro de 2011
O Que O Amor É
Resposta Errada
Morte em Vida
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Bebado Apaxonado
Me leva para um mundo louco, semi-lúcido
Aonde somos todos loucos e reis do nada
Viva a serenidade da insanidade adquirida
Em seus doces goles de insensates
Que me fazem errar as palavras
E ainda assim ser feliz
Dias que a noite vira eterna
E a eternidade nada mais vale que um segundo
Tormento de vezes em vezes que a voz da conciencia me agride
Gritando para despertar do meu torpor feliz
Ignoro meus lamentos egocentricos
E concentrado no que me importa de verdade
Caio de braços com meu amor
Encurralado por um dilema simples:
A ressaca trará o meu amanhecer, então que seja eterna a noite!
Reviver
Uma chama queima e morre
Uma gota seca
Um suspiro se vai perdido no tempo
Mas meu amor é vivo
Tanto sangrei pelos pulsos
Tanto chorei lagrimas sangrentas
Tanto me enganei no amor cruel
Mas nunca entreguei-me a derrota
Meu coração ainda pulsa
Moribundo e sanguinolento
Como um soldado ferido, me levanto
Dentre os mortos, ainda ergo a face frente a dor
Não desisti perante as derrotas infieis
Não entreguei-me as trevas sedutoras
Nem mesmo a morte me derrubou
Mas entrego-me de corpo e alma
A este novo amor que me trousse a redenção
E mais, me deu motivos pra viver.
Poetizando
Que se perdem no tempo
Como fragmentros perdidos
De uma realidade esquecida
Pequenos devaneios
De dias que vivi
Escritos de forma tão viva
Que me fazem duvidar de minha autoria
Quem sou eu, se não um simples sonhador
Mas de que se tratam os poemas, se não de sonhos
Concebidos no sonhar acordado de um poeta
Desapercebido de seu dom irreal.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
De Que Basta?
Se deste só provem lagrimas?
De que serve ter vida?
Se desta nenhum amor resta?
De que basta ter fé?
Se nenhum Deus me escuta as preces?
De que adianta estar diante a ti?
Se já é tarde demais para mim?
quarta-feira, 2 de março de 2011
Romântico Incorrigivel
Palavras são muito pouco para descrever
terça-feira, 1 de março de 2011
Soares de Passos No Escuro
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Então Foge
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Sobre Seu Túmulo
Nada de bom para comentar
A Morte De Um Homem Sem Amigos
Futilidade
Escrevendo a Vida
Mais Um Dia Cinzento
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Redenção
Garotinho Solitário
Ninguém Gosta
Ninguém gosta da derrota