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Escrever sempre foi um hobbie e uma forma de tratamento para os momentos mais difíceis ao longo da minha formação como indivíduo. Nunca imaginei que meu trabalho viria ao encontro de tantas pessoas. Que tantos se identificariam com os sentimentos com os quais lido em meus trabalhos. Criei esse blog como um backup de minhas poesias, por medo de que se perdessem caso não as tivesse em rede. Hoje tenho um público cada vez maior e que, mesmo com minhas prolongadas ausências, continua a acompanhar minhas postagens. Agradeço pelo interesse, de verdade.

sábado, 7 de março de 2026

Ato 10 - A Queda

  "Meus dias foram mais sombrios após aquele duelo. Algo se quebrou dentro de mim, morrendo em meus braços junto com aquele homem. Segui atuando em minhas responsabilidades. Angus achou tudo aquilo hilário... 'Eu não imaginava que você tivesse um lobo dentro de você, meu Bror! Confesso que temi pela sua vida quando o duelo foi convocado. Mas o homem tinha o direito de exigir reparação da honra... Eu só podia confiar que os Deuses protegeriam você. Mas eu estava errado! Você foi um verdadeiro Stridskämpe (combatente)!'. Por mais bem intencionadas que fossem as palavras de Angus, elas me atingiam como uma marreta sobre o aço quente de uma forja. Aos poucos, fui me afastando da Casa Grande e me restringi ao clausuro da Casa de Cura... Cura... Irônico. Em nada aquele lugar podia me ajudar a curar a mácula que eu carregava. Esse xeque de minha adversária quebrou minhas defesas e o pior ainda estava por vir. Elara continuou vindo me visitar, apesar dos meus protestos. Ela se culpava tanto quanto eu, ou até mais. Isso me corroía. Ela era jovem, bonita e tinha um perfume delicioso de flores do campo e lavanda. Eu não suportava a ideia de ter destruído seu futuro. Nenhum homem iria dividir seu teto com ela. A fama de infiel destruiu qualquer chance de que isso ocorresse. Ela tornou-se uma pária na vila e por isso eu não podia rejeitar suas visitas. Eu era tudo que ela tinha. Com o tempo, Elara aprendeu um pouco sobre medicina. Ela então passou a me ajudar no tratamento dos enfermos, principalmente as grávidas. Algumas pessoas da vila começaram a maldizer a Casa de Cura, dizendo que era um lugar sujo onde a luxuria e a promiscuidade tomavam conta. Novamente, os boatos cresciam, famintos por sangue. Os peregrinos continuavam vindo de todas as partes. Homens ricos e pobres. Jovens e velhos. Todos queriam uma resposta que aplacasse seus sofrimentos. Eu nunca recusava ninguém, mas Elara sim. Ela começou a selecionar quem era prioridade, quem poderíamos ajudar e quem era um 'caso perdido'. Isso gerou um conflito. Pela primeira vez, brigamos. Eu disse 'Você não tem o direito de decidir quem pode ser salvo! Temos que atender TODOS de forma igual!' e ela me respondeu 'Você NÃO PODE salvar a todos! Você esta se destruindo! Pare! Você precisa descansar! Você não vê que a culpa está te matando? Olhe para si! Está magro! Está pálido! Você está mais morto do que vivo, Hellicar! Você precisa cuidar de si, ou não poderá ajudar mais ninguém!'. Eu sabia que ela tinha razão, mas meu orgulho me cegou. Eu PRECISAVA salvar todos... Eu PRECISAVA... Era uma obsessão. Cada vida que eu salvava diminuía um pouco a culpa... Mas a cada morte, a culpa era redobrada. Era uma matemática cruel. Jogar contra a morte era a inevitabilidade da derrota, mas eu u era teimoso demais para desistir. Então, ela partiu. Sem suportar acompanhar meu declínio, ela me deixou. No momento, eu estava anestesiado para essa dor. Tudo que eu podia pensar era no próximo paciente. Na próxima vida que eu salvaria. Eu derrotaria a morte. Eu PRECISAVA. Eu precisava... Mas... Por quê? Eu não pensava mais. Eu agia. E assim eu salvava vidas. Uma noite, um homem bateu na porta da Casa de Cura. Ele vestia um manto negro que lhe encobria a face. Seu cheiro era de algo podre, doentio e sanguinolento. Me lembrava diretamente do cheiro do calabouço e da condenação. Ele entrou sem cerimonia, jogando um saco cheio de ouro sobre minha mesa. 'Então... Você é o tal milagroso curandeiro... O agente divino enviado pela própria Deusa pra curar a morte...'. Eu não sabia o que responder. O tom do homem era de desprezo e descrença, mas tinha um toque de desespero e expectativa... Um sintoma de urgência. 'Me cure então! Se não for capaz, você sofrerá as consequências...'. Lembro de pensar 'Consequências? Eu já sofro elas...', contudo o que o homem prometera era algo muito pior do que eu podia imaginar. Ele então tirou suas roupas e revelou sua mácula. Fístulas e pústulas negras como a noite sem luar. Deformações da carne que desafiavam a lógica... Era para ele estar morto... Aquilo me intrigou... Ascendeu uma chama que a muito havia se apagado em mim: curiosidade. Examinei sua condição, seus sintomas... Aquilo não era uma doença comum... Era Corrupção. Por três dias e três noites tranquei a Casa de Cura. Pela primeira vez, recusei pacientes. Draskull, como se chamava aquele homem, exigia toda a atenção que eu tinha. Ele era agressivo, bruto e intempestivo. Frequentemente me chamava de fraude, de aberração de Davokar, mas eu não dava importância. Busquei nos registros de Adela as informações sobre a Corrupção e me dediquei a tratar as feridas borbulhantes. Mas aquilo estava muito além da minha capacidade... Talvez, além da capacidade de qualquer um. Fui obrigado a admitir minha ignorância e Draskull vociferou injurias e amaldiçoou-me. Quando ele partiu, me senti estranhamente aliviado. A presença daquele homem era nefasta... Fazia as sombras se alargarem e o frio se intensificar. As palavras dele me assombraram por vários dias e sonhei por muitas noites com sua ameaça. Então a maldição se concretizou. Começaram a surgir feridas negras na minha pele. Então, fístulas irromperam e espalharam-se pelo corpo. Febre alta e dores atrozes, piores do que qualquer tortura que Dullihan pudesse me propor. Draskull havia me maculado com sua maldição... A mesma que ele suportava. Logo, a vila soube da minha condição. Os boatos de que a Corrupção havia se alastrado se espalharam como fogo selvagem. Peregrinos foram expulsos, doentes comuns foram isolados. Nem Angus ousava me ver em meu estado maculado. Eu estava apodrecendo em vida e não podia fazer nada para impedir. A minha inimiga tinha me dado um golpe fatal... Eu chorava pensando em Elara, em Nassus, em minha infância antes da mudança... Pelo menos Elara e Nassus não estariam aqui para ver o meu tormento. As palavras de Von Heither ecoavam na minha mente: 'Você merece morrer'. Esse pensamento me perfurava como uma adaga. Doía mais do que a própria degradação da carne. Quanto tempo mais eu iria suportar? Eu... Estava perdendo as esperanças. Quase desejava a morte... Mas isso seria trair meu salvador... ' Se há vida, existe a esperança'... Mas até quando?"

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