"No celebrar do meu sétimo verão, minha mãe, como era de se esperar, convocou todos os habitantes da vila e arredores para celebrar. Eu estava apavorado. Era uma oportunidade única de finalmente conhecer as crianças que tanto observei em silêncio... Ylva e seu cachorro malhado... Yan, o garoto de 10 verões que era do tamanho de um adulto... Thork, o filho do açougueiro que praticava o oficio desde seu quarto verão! Eu conhecia todos! Mas... ELES não me conheciam. Sob fortes protestos de minha mãe e sob a vigília de meu pai, fui autorizado a me juntar com aquela turba alegre que comia e cantava em alegre celebração... Celebravam meu aniversário? Difícil saber. Mas quando a família mais rica da região te convida para comer de graça, ninguém ousa recusar... Timidamente, me aproximei de um grupo de crianças... Elas pararam sua falação sobre batatas e repolhos e me olharam com um ar de curiosidade, medo e desprezo... Como quando se vê um inseto exótico em uma folha, mas o animal voa em sua direção. Eu tentei me apresentar, mas as palavras travaram em minha garganta, como se fosse feitas de terra. Então, Yolan, a filha mais nova de um campones da região, me olhou com seus lindos olhos, azuis como profundas piscinas onde os animais se juntam para bebericar. 'Oi! Hoje é a celebração de seu sétimo ano, né? Por isso estamos aqui, né?' 'Sssi...sis...sim...' Consegui cuspir as palavras, que queimavam minha boca como se fossem urtiga brava. 'Eu... Eu queria... Eu queria... Saber se vocês querem brincar comigo...' As crianças se entreolharam, desconfiadas e intrigadas... 'O pequeno príncipe desceu do trono para rastejar no chiqueiro com seus servos?' Rompeu um garoto magro de cabelos ruivos eriçados e rosto marcado pela peste, Kuno, era seu nome... Então, em resposta quase ensaiada, sua irmã, Kunoesse, disparou: 'Isso mesmo Kuno! O principezinho quer brincar na lama Kuno... Vamos FAZER ele brincar na lama, Kuno!' Então, os dois saltaram sobre minhas pernas e me derrubaram. Kuno me puxou para uma poça de barro fresca, enquanto Kunoesse segurava meus braços... As outras crianças riam e aplaudiam em fervoroso êxtase... Anos de humilhação, vingados naquele instante pelos gêmeos justiceiros... Mas um rosto na multidão observava em choque... E não era Yolan, a qual se juntara ao coro de risos. Era minha mãe. Ela estava rubra, quase roxa de ódio... Os gêmeos demoraram para perceber o tamanho do problema que haviam encontrado... Foram poucos instantes ate que uma legião de soldados cercassem os dois e os deixa-se a beira da morte... As demais crianças fugiram, ou ao menos tentaram, enquanto eram atingidas por golpes impiedosos dos bastões da guarda leal ao meu pai. E nesse momento que a mudança ocorreu. Ao lavar a lama, meus olhos haviam se tornado maiores... Minhas orelhas ficaram pontudas e meu rosto perfeito estava deformado, como uma caricatura estranha de um humano. E assim eu fui rebaixado. De jóia e bibelô, para um suíno rastejando na lama... Um verme desprezível que minha mãe jamais seria capaz de amar... Uma abominação, semelhante aquelas aos quais meu pai jurou livrar o mundo... Eu me tornei um pária... Uma fraude... E isso trouxe para eles a questão: 'Onde está o VERDADEIRO Hellicar!?' E essa questão foi repetida muitas vezes durante as sessões constantes de tortura. Espancamento, privação de sono e comida, cortes e chicotadas... Meu 'pai' não pouparia esforços para que eu revelasse onde estava seu VERDADEIRO filho... Como se eu soubesse o que isso significava..."
Este é o cemitério onde enterro meus sentimentos. Cada poema aqui publicado, tem a exclusiva razão de ser um desabafo para mim mesmo. Se quizer compartilhar, a vontade. Mas cuidado, se se aprofundar de mais no meu escuro pode se perder.
O Autor
- Dalua - O Poeta Sombrio
- Escrever sempre foi um hobbie e uma forma de tratamento para os momentos mais difíceis ao longo da minha formação como indivíduo. Nunca imaginei que meu trabalho viria ao encontro de tantas pessoas. Que tantos se identificariam com os sentimentos com os quais lido em meus trabalhos. Criei esse blog como um backup de minhas poesias, por medo de que se perdessem caso não as tivesse em rede. Hoje tenho um público cada vez maior e que, mesmo com minhas prolongadas ausências, continua a acompanhar minhas postagens. Agradeço pelo interesse, de verdade.
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