"O dia seguinte trouxe um céu cinza e o sol encoberto por nuvens de chuva. O vagão de Nassus sacudia na estrada como um barco em uma tempestade. Ele dizia ao seu cavalo Horse: 'Vamos, vamos! O tempo é curto! Temos que chegar na próxima vila antes da chuva!'. Eu observava tudo com cautela, encostado em um canto do vagão. Nas paredes do carro, instrumentos semelhantes aos de Dullihan... Serras, facas, martelo... Mas impecavelmente limpos. O som de vidro vinha de uma bancada alquímica cheia de frascos fixos em suportes de bronze. Um cheiro forte de ervas emanava da mesa. Ao canto oposto de onde eu estava, uma cama com amarras de couro e uma estante de ingredientes. Livros de vários tamanhos, pergaminhos e ilustrações anatômicas estavam dispostos de forma organizada em várias prateleiras... Como aquilo não caia com o sacolejo do vagão? Esse mistério eu nunca desvendei. Chegamos e partimos daquela vila e de muitas outras... Entre um comentário sobre o tempo e as condições da estrada, direcionado a Horse, Nassus me contava histórias sobre quem ele era. Durante as sessões na cela, ele já havia me contado um pouco sobre sua trajetória. Nassus nasceu em Ambria. Foi educado para ser um Meistre em uma grande faculdade de Cirurgiões, mas ele era muito arrogante e prepotente. Acabou sendo expulso da ordem por desafiar seus mentores. Desgraçado, Nassus sucumbiu aos vícios. Álcool, mulheres, jogos... Ele perdeu rapidamente toda fortuna de sua família a acabou nas ruas, doente e miserável. Ele pedia pela morte todos os dias... Mas quando viu uma criança sufocando na rua ele imediatamente foi tomado por uma vontade súbita de agir. Sob protestos e ameaças dos transeuntes, Nassus debruçou-se sobre a criança e fez uma manobra para salva-la. O pai do menino queria espancar o mendigo imundo que se debruçava sobre seu filho inconsciente, mas quando a criança voltou a respirar, todos ficaram aliviados e espantados. O pai, confuso, deixou o 'agressor' fugir, para dar atenção ao menino que tossia e respirava avidamente. Nassus correu, sem tempo para justificativas, sem agradecimento, sem reconhecimento, mas orgulhoso de ter salvo aquela vida. Então um pensamento tomou conta de seu âmago: Se ele tivesse morrido, como tanto queria, aquele menino também estaria morto agora. Isso iluminou Nassus. Ele passou a dedicar sua vida ao bem dos outros. Nassus então passou a cuidar de si. Cortou seus vícios e passou a dedicar seu tempo a prestar cuidado as pessoas que não tinham acesso aos médicos. Juntando aos pouco as moedas que recebia de seus pacientes, dinheiro doado e nunca exigido, ele montou seu vagão. Um dia, ou melhor, em uma noite, ele conheceu uma bruxa chamada Adela... Ela era tudo que um homem poderia desejar... Lasciva, bela, irreverente... Quase selvagem... Mas extremamente habilidosa na cura. Nassus me poupou de detalhes sórdidos devido minha pouca idade, mas tenho certeza de que tiveram momentos ardentes, dado as expressões que ele fazia ao lembra-se dela... Mas Adela era algo que não podia ser ignorado. Ela foi uma mentora, guia e amante de Nassus por longos anos... Ela levou ele para fora das terras de Ambria em direção a Dovakar e ensinou sobre a Terra Antiga e seus segredos. Enquanto ele me contava essas histórias, ele me repassava os ensinamentos de Adela sobre botânica, fisiologia, anatomia, patologia... E assim eu aprendi. Nassus era um professor paciente, mas um pouco relapso. Ele divagava frequentemente em suas memórias, revivendo momentos sombrios e felizes em mesma proporção. Viajamos juntos por todos os cantos. Atendemos todo tipo de pessoa... Humanos, Goblins, Ogros, até um elfo... Uma vez... Alguém que parecia não estar doente... E usava um anel estranho... Quando ele foi embora, deixou esse anel como pagamento pelo serviço... Ele disse algo como 'De isso ao garoto. Isso é algo que deveria ter ficado com ele já há bastante tempo.' Eu só fui entender isso anos depois. Nossa viagem continuou por alguns anos, então Nassus começou a apresentar sinais de desgaste... Tosses frequentes e sangue... Então ele decidiu procurar a única pessoa que ele sabia que poderia ajuda-lo. Adela."
Este é o cemitério onde enterro meus sentimentos. Cada poema aqui publicado, tem a exclusiva razão de ser um desabafo para mim mesmo. Se quizer compartilhar, a vontade. Mas cuidado, se se aprofundar de mais no meu escuro pode se perder.
O Autor
- Dalua - O Poeta Sombrio
- Escrever sempre foi um hobbie e uma forma de tratamento para os momentos mais difíceis ao longo da minha formação como indivíduo. Nunca imaginei que meu trabalho viria ao encontro de tantas pessoas. Que tantos se identificariam com os sentimentos com os quais lido em meus trabalhos. Criei esse blog como um backup de minhas poesias, por medo de que se perdessem caso não as tivesse em rede. Hoje tenho um público cada vez maior e que, mesmo com minhas prolongadas ausências, continua a acompanhar minhas postagens. Agradeço pelo interesse, de verdade.
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